Uma nova análise conjunta da organização ambientalista 350.org e do centro de investigação Zero Carbon Analytics, revela que 81% das reservas globais de petróleo e 68% da produção mundial estão concentradas em países sujeitos à influência direta ou indireta dos EUA.
O estudo surge num contexto de crescente instabilidade internacional e de uma estratégia assumida da administração norte-americana para reforçar a sua posição dominante nos mercados globais de energia. A Venezuela, que detém cerca de 20% das reservas mundiais de petróleo bruto, está no centro desta equação, num momento em que Washington procura simultaneamente pressionar politicamente o regime e atrair investimento estrangeiro para o setor petrolífero do país.
A nova doutrina energética de Washington
A mais recente Estratégia de Segurança Nacional dos EUA assume explicitamente a ambição de expandir a influência norte-americana nos domínios político, económico e militar. Os analistas segundo a 350.org apelidaram o documento de “Doutrina Donroe”, numa referência à Doutrina Monroe de 1823, que afirmava a primazia dos EUA no hemisfério ocidental e que, historicamente, serviu de base para múltiplas intervenções na América Latina e nas Caraíbas.
Segundo o relatório, 81% das reservas globais de petróleo e mais de metade da produção e das reservas mundiais de gás natural estão atualmente localizadas em países inseridos sob a esfera de influência dos Estados Unidos. Quando se junta a este bloco a produção controlada pela Rússia, o número torna-se ainda mais expressivo: 79% do petróleo mundial depende de apenas dois grandes polos de poder.
De acordo com esta estratégia, os países da América do Norte, Central e do Sul são explicitamente enquadrados como estando na esfera de influência dos Estados Unidos. O objetivo declarado é reafirmar a dominância americana em todo o hemisfério, remodelando as relações políticas, económicas e de segurança nesse processo.
Energia como risco de segurança
Para Andreas Sieber, responsável pela estratégia política da 350.org, estes dados evidenciam uma fragilidade estrutural do sistema energético global. “A dependência dos combustíveis fósseis tornou-se um risco para a segurança. Cada sanção, cada ameaça militar ou cada escalada de tensão tem efeitos imediatos nos preços, na oferta e na estabilidade económica”, afirma em comunicado.
Nos últimos doze meses, recorda o relatório, os EUA interviram militarmente ou bombardearam países como a Venezuela, o Irão e o Iraque, além de emitirem ameaças explícitas contra outros territórios, incluindo Canadá, Colômbia, Gronelândia e México. “Nas Américas, muitos dos países ameaçados por Trump podem não estar sob controlo direto dos EUA, mas são amplamente considerados como estando dentro da esfera de influência estratégica de Washington — uma realidade que acarreta riscos políticos e de mercado significativos”, afirma a 350.org.
“Mesmo os produtores de petróleo que não enfrentam pressão direta estão profundamente integrados nos sistemas financeiro e militar norte-americanos, como demonstra a longa cooperação em termos de segurança de países como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, reforçando a alavancagem de Washington sobre o mercado energético global. Na prática, isso reforça a influência dos EUA sobre o fornecimento global de petróleo sem ser necessário recorrer à ação militar direta.”
Renováveis como alternativa estratégica
Para Bridget Woodman, diretora de política e finanças da Zero Carbon Analytics, esta concentração de poder “apenas agrava a volatilidade e os custos do petróleo e do gás”, com impactos diretos nos consumidores e nas economias nacionais.
Os autores do estudo sublinham que a alternativa já está em marcha. Segundo a Agência Internacional da Energia, a capacidade global de produção de eletricidade a partir de fontes renováveis deverá crescer 4.600 gigawatts entre 2025 e 2030, o que corresponde ao dobro do crescimento registado nos cinco anos anteriores. A energia solar, a eólica, o armazenamento em baterias e a eletrificação são apresentados não apenas como soluções climáticas, mas como estratégias de segurança a longo prazo.
“Os sistemas de energia renovável não precisam de proteção militar, não desestabilizam regiões e não alimentam conflitos geopolíticos”, conclui Sieber. Num mundo cada vez mais marcado por rivalidades estratégicas, o relatório deixa um aviso claro: enquanto o petróleo continuar a ser o pilar do sistema energético global, a instabilidade será parte do preço a pagar.