A embaixadora ucraniana em Lisboa defendeu hoje perante o parlamento português que a adesão da Ucrânia à União Europeia em 2027 seria “uma garantia de segurança e estabilidade”, reconhecendo a necessidade de várias reformas, nomeadamente no Estado de Direito.

“O acesso preliminar em 2027 vai exigir a concretização de passos essenciais, nomeadamente no Estado de Direito e outros que temos vindo a discutir com a Comissão Europeia”, disse hoje Maryna Mykhailenko, durante uma audição na comissão parlamentar de Assuntos Europeus.

Segundo a diplomata, a reforma do Estado de Direito “é um tema essencial do roteiro [para a integração europeia] e uma pedra de toque para o desenvolvimento do país”.

“Estamos cientes das condicionalidades [do acesso à UE], mas estamos muito empenhados em levar por diante as reformas necessárias”, afirmou a embaixadora, que disse esperar que as negociações oficiais possam avançar, ultrapassando o bloqueio da Hungria.

“O facto de a Ucrânia pertencer à União Europeia vai garantir segurança e estabilidade no futuro”, disse a diplomata, afirmando que o acesso ao bloco europeu no início de 2027 “iria permitir um outro apoio” e seria também “muito importante para dar um sinal à Federação Russa de que não há qualquer forma de negar o passado europeu”.

Não existe ainda uma data para a adesão de Kiev ao bloco dos 27, mas o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, tem exigido um prazo e já garantiu que o país estará pronto para a integração no início do próximo ano.

Sobre o empréstimo de 90 mil milhões de euros aprovado pela União Europeia, mas atualmente bloqueado por Budapeste, a embaixadora afirmou que a defesa representa metade do orçamento ucraniano e que esse dinheiro faz falta já no próximo mês para financiar a proteção civil e a ajuda humanitária.

Quanto às negociações de paz para o conflito com a Rússia, que entrou no quinto ano, Maryna Mykhailenko rejeitou liminarmente a proposta de Moscovo para que Kiev se retire de 20% da região do Donbass (leste): “Não acreditamos nas palavras da Rússia”.

“É uma questão crucial para a nossa defesa. A Rússia não consegue conquistar mais do que uma pequena percentagem já desde 2014. Se retirássemos as tropas desta região, estaríamos a abrir as portas para outras regiões, o que iria criar outras ameaças”, sustentou.

A representante ucraniana aplaudiu ainda a aplicação das sanções europeias a Moscovo, afirmando que no ano passado “houve uma diminuição acentuada em setores chave da economia russa” e disse esperar a aplicação do 20.º pacote de medidas, também bloqueado por Budapeste.

A Hungria e a Eslovénia mantêm um braço de ferro com Kiev e Bruxelas devido à suspensão da transferência de petróleo russo através do oleoduto Druzhba, que foi danificado em território ucraniano por um ataque russo.

“Estamos comprometidos com a reconstrução [do oleoduto] e a Ucrânia continua a ser um parceiro energético importante na UE. Estamos a tentar manter um diálogo frutífero com Budapeste e Bratislava”, comentou a embaixadora.

A diplomata chamou ainda a atenção para as dificuldades vividas pelos ucranianos, que “passaram o pior inverno de sempre”, já que 60% das infraestruturas energéticas colapsaram devido a ataques russos.

Maryna Mykhailenko também lamentou a situação das crianças ucranianas “deportadas à força” para a Rússia, que as autoridades de Kiev estimam em “pelo menos 20 mil”.

“Não sabemos o número exato de crianças, o Governo russo não coopera”, lamentou a embaixadora.

Em maio, adiantou, a Ucrânia vai promover em Bruxelas um evento dedicado a este tema, convidando Portugal a aderir.