Não há actualmente falta de assunto de discussão e especulação.

Em primeiro lugar, o ataque conjunto dos EUA e de Israel ao Irão. Era uma questão de tempo. Nunca acreditei que fosse possível conseguir uma solução de compromisso através de negociações diplomáticas. Nunca quadrou bem com as personalidades e idiossincrasias dos principais personagens envolvidos de ambos os lados.

Para o Governo de Israel, o Irão representava a sua maior ameaça, e por isso aproveitou (será que não impulsionou?) a oportunidade criada pela crescente frustração de Trump pela falta de resultados na mesa de negociações. Por seu lado, o Irão permaneceu irredutível no desafio à oposição internacional ao desenvolvimento do seu programa nuclear, subavaliando a preferência da comunidade internacional, sobretudo da Rússia, da China e da Europa, por uma solução negociada, que acreditou poderia fazer com que os EUA hesitassem no uso da força.

O Governo iraniano terá também subavaliado o pouco respeito que Donald Trump tem pela opinião da comunidade internacional. Mais uma vez, Trump não teve dúvidas em agir fora dos quadros do Direito Internacional, a que só recorre quando são interesses americanos que estão ameaçados. E o Irão também avaliou erradamente, de forma grosseira, o efeito que a resposta na forma de ataque a países que não estavam directamente envolvidos no conflito, iria provocar no resto do Mundo. Essa reacção deu à maior parte dos países o argumento suficiente para se limitarem a apelar ao não escalar do conflito, aceitando na prática a acção americano-israelita, que também veio dar mais ânimo à crescente contestação interna ao regime iraniano.

Esta acção americana não é um caso isolado, e nem sequer é, verdadeiramente, um precedente. Foi antecedida pela invasão da Ucrânia, a que já se seguiu a Venezuela. Poderão surgir tentações análogas na Gronelândia e ao Panamá. E não ajuda nada a resolver o problema de Taiwan. E levanta dúvidas sobre o que os EUA e a Rússia poderão pretender fazer na Europa – entre outras regiões, onde a China também estará interessada. E para consumo doméstico, abriu espaço para a discussão sobre as condições de uso da Base das Lajes.

Ou seja, o Mundo em que as relações internacionais assentavam no respeito pela soberania das nações e as questões se discutiam no Conselho de Segurança da ONU, mesmo com a imobilidade decorrente do uso do veto, tornou-se definitivamente uma coisa do passado. E passámos a viver num quadro muito mais instável, imprevisível e intrinsecamente perigoso.

Também em Portugal as últimas semanas vieram abrir outros temas de discussão, que ao mesmo tempo tornam mais difícil a tão ambicionada estabilidade e dificultam a vida a Montenegro. É um facto que a falta de uma maioria clara no Parlamento incentiva a instabilidade. E que a dificuldade que o Governo tem tido para apresentar resultados face às grandes áreas de problema que o país atravessa, agravadas pelas tempestades de Janeiro e Fevereiro, não ajuda. Mas a cereja no topo do bolo foi a inusitada declaração de Passos Coelho a abrir a discussão sobre eleições antecipadas. Mesmo com a contextualização posterior de que se estava a referir a eleições “quando houver eleições”, a frase não pode ser interpretada de outra maneira. Mas também não é novidade que o PSD tem uma enorme capacidade de fazer oposição a si mesmo – já Marcelo foi em tempos acusado de o fazer face a Santana Lopes…

Nesta novela, faltam as cenas dos próximos capítulos.