A decisão do presidente norte-americano de lançar uma ofensiva contra o Irão, após o assassínio do Líder Supremo Ali Khamenei, ameaça desestabilizar o Médio Oriente, num conflito que pode prolongar-se e ter custos imprevisíveis. Trump falou no desejo de dar liberdade aos iranianos, prometendo ainda destruir um programa nuclear que já afirmara ter obliterado. Mas esta aposta de lançar uma guerra ao lado de Israel é baseada numa lógica questionável e difusa. Anunciada com fundamentos internos frágeis, pouco apoio da opinião pública nos EUA e sem consultar o Congresso para autorizar as hostilidades. É, definitivamente, o rasgar da promessa “América Primeiro”, que era contra guerras para mudança de regime – um objetivo assumido por Trump no conflito contra o Irão e que o secretário de Estado Marco Rubio veio depois contrapor com a necessidade de acabar com a aspiração nuclear, a destruição de mísseis e a capacidade de fabricá-los.

A nova ação militar volta a violar o direito internacional, à luz da carta da ONU que prevê o uso da força apenas em legítima defesa contra um ataque iminente ou com a aprovação do Conselho de Segurança. Nenhuma dessas condições foi atendida. A lei não pode ser opcional para aliados e vinculativa apenas para adversários, como foi o caso da Rússia ao justificar a invasão da Ucrânia para impedir uma ameaça futura.

É questionável se a guerra de Trump enfraquece o Irão quando esta ação enfraquece o sistema de regras do qual depende a estabilidade global. Quebrar estas regras é normalizar a guerra preventiva. Um precedente perigoso numa era de crescentes arsenais de mísseis, proliferação nuclear e ameaças cibernéticas.

A questão que se deve colocar é quem beneficia desta nova guerra. O Irão não possui mísseis balísticos intercontinentais. Marco Rubio admitiu recentemente que a ameaça se resume à possibilidade de, um dia, poder vir a ter esse tipo de capacidade. Mas será que está prestes a iniciar o enriquecimento de urânio em escala industrial? Rubio também já disse publicamente que não está. E ainda há oito meses, Trump tinha assegurado que o programa nuclear de Teerão fora “totalmente obliterado”. Questiona-se, por isso, como é que algo desaparecido e pulverizado ressurge, repentinamente, na face da Terra para se justificar uma nova guerra.

Será que é porque Trump se compadece com os iranianos que vivem nas garras de um regime opressor e se move pelo desejo de dar-lhes liberdade? Pensemos que sim e na estranha mensagem de vídeo pré-gravada na manhã de sábado, onde Trump exortou o povo iraniano a derrubar o seu governo. Mas não se viu qualquer esforço, sério ou ténue, para os EUA viabilizarem o sucesso dessa insurreição popular. Por exemplo, medidas para garantir o acesso à internet, sem rédea curta e controlo político de um país onde uma derrocada do regime é improvável sem intervenção terrestre.

Se não estão prestes a possuir uma bomba nuclear e não se trata de apoiar o povo iraniano, a que se deve a Operação Fúria Épica? Talvez Trump tenha iniciado uma guerra desejada por Israel. Com a narrativa comum da ameaça iraniana iminente, as explicações da administração Trump têm-se sucedido e contradito em poucos dias.

Ou talvez seja por causa do petróleo e o seu desejo de domínio imperialista despudorado. Mas o Irão não é a Venezuela. Não há nenhum vice de Khamenei para acatar as ordens dos EUA. A guerra pode ter começado rapidamente, mas suas consequências provavelmente serão duradouras. Cui bono?