Estamos ainda a lidar com a recuperação do impacto de tempestades de ventos e chuva (Kristin e Martha) e já começamos a ouvir falar de novos aumentos dos preços da energia, associados às tensões e conflitos no Médio Oriente. A sucessão de acontecimentos lembra-nos algo que se tornou cada vez mais evidente nos últimos anos: as crises deixaram de ser exceção.

Pandemia, tensões geopolíticas, disrupções nas cadeias logísticas, inflação, transformações tecnológicas aceleradas. Em poucos anos acumulámos acontecimentos que antes levariam décadas. Mas talvez a pergunta mais importante não seja se haverá novas crises ou eventos não previstos. Essa resposta parece hoje evidente. A pergunta relevante é outra: estamos mais preparados para lidar com eles?

Nas organizações, a gestão do risco e da crise ganhou um lugar central. Empresas que operam em contextos competitivos sabem que não podem ignorar a incerteza. Avaliam riscos, constroem cenários, criam planos de contingência e procuram reforçar a resiliência das suas operações. Mas estas experiências recentes mostram também que nenhum plano antecipa tudo.

Quando o inesperado acontece, o que faz verdadeiramente a diferença não são apenas processos ou manuais. São as pessoas, a cultura das organizações e a capacidade de mobilização coletiva. Temos visto exemplos dessa capacidade em várias empresas portuguesas. Grupos como a Mota-Engil, a EDP, a Galp ou a Sonae operam em contextos globais, complexos e altamente competitivos, onde a gestão de risco e a capacidade de adaptação fazem parte da gestão diária. Em contextos de instabilidade, a rapidez de decisão, a mobilização das equipas e a articulação com parceiros tornam-se determinantes.

Mas essa capacidade não nasce no momento da crise. Constrói-se antes. Constrói-se na qualidade da liderança, na confiança entre equipas, na clareza de processos e na responsabilidade distribuída pelas organizações. Talvez por isso seja útil olhar para a gestão de crise não apenas como um exercício técnico, mas como um exercício de preparação coletiva. E essa preparação começa muito antes das empresas.

O que estamos a fazer nas escolas para preparar jovens para um mundo incerto? O que fazemos nas universidades para formar líderes capazes de decidir com informação incompleta? Como educamos, nas famílias e nas organizações, para a responsabilidade, a colaboração e a capacidade de agir em contextos difíceis?

Os eventos inesperados continuarão a acontecer. As crises continuarão a existir. A diferença entre pânico e capacidade de resposta raramente está na crise em si. Está na preparação que fizemos antes dela chegar. O que vamos começar a fazer diferente?