Helmut Schmidt, que sabia muitíssimo bem distinguir uma crise séria de um momento de pânico, dizia que os políticos que têm visões deviam consultar um médico. A frase era menos um insulto do que um aviso contra a embriaguez ideológica. A Europa de hoje não sofre de falta de visões, sofre de excesso de choques. E a guerra com o Irão, ao perturbar energia, economia, comércio, confiança e expectativas, ameaça produzir precisamente o ambiente em que os extremos crescem melhor: uma mistura de medo material, fragilidade governativa e descrença no actual mundo político.

Convém dizê-lo com frieza. Toda a crise económica fabrica vencedores. Nem sempre são os mais preparados, quase nunca são os mais responsáveis, muitas vezes são apenas os mais disponíveis para transformar ansiedade em slogan. O novo choque estratégico no Médio Oriente está a criar um tipo de vencedor que deveria preocupar seriamente a Europa: os populismos de direita e de esquerda que vivem da inflação política produzida pela insegurança económica.

Quando sobe o preço da energia, quando se torna mais cara a vida quotidiana, quando regressa a sensação de perda de controlo, o eleitorado não procura apenas soluções, procura culpados. E os extremos oferecem sempre culpados antes de oferecerem soluções, verdadeiras agendas de reforma ou capacidade de superar crises.

O risco para a Europa é, por isso, duplo. O primeiro é económico. O continente continua estruturalmente mais vulnerável do que os Estados Unidos a choques energéticos externos, porque importa energia, paga mais depressa o preço geopolítico da disrupção e transporta esse custo para a indústria, para os transportes e para os consumidores. O segundo risco é político. Uma economia europeia pressionada por preços energéticos mais altos, crescimento anémico e menor margem orçamental torna-se o terreno ideal para a retórica dos partidos que prometem soberania instantânea, proteção identitária e castigo das elites. É nesse ponto que a crise deixa de ser apenas uma questão de petróleo e passa a ser uma questão de regime.

A Alemanha é talvez o primeiro laboratório dessa tensão. Friedrich Merz sofreu já um revés importante em Baden-Württemberg, onde a CDU ficou atrás dos Verdes e a AfD obteve o seu melhor resultado de sempre num estado da antiga Alemanha Ocidental. Importante recordar que haverá ainda quatro eleições estaduais este ano, o que significa que a pressão sobre o chanceler, líder de um governo preso por arames, está apenas a começar. Num país onde a combinação entre estagnação industrial, energia cara e ansiedade cultural já alimentava a AfD, qualquer agravamento do choque externo reforça a ideia populista de que o centro governante perdeu o comando da máquina. Merz pode ter razão quando diz que um escrutínio regional não decide a coligação federal, mas não pode impedir que ele se torne sintoma de uma erosão mais profunda.

A França oferece outro tipo de aviso. As eleições municipais deste mês estão a ser lidas como um ensaio geral para a presidencial de 2027, e os primeiros resultados mostraram um avanço expressivo da Rassemblement National, ao mesmo tempo que a esquerda radical também capitaliza a polarização. A força da extrema-direita em cidades simbolicamente importantes e a crescente fragmentação do campo moderado e conservador clássico, sugerem que o choque do custo de vida e da insegurança internacional continua a corroer o espaço central da política francesa. Macron, que já governa num ambiente de autoridade diminuída a chegar a zero, vê agora o seu legado comprimido entre um centro fatigado, uma direita nacional-populista em ascensão e uma esquerda que prefere muitas vezes a combustão ideológica à responsabilidade de governo. O teste eleitoral na França será um momento histórico para o futuro da União Europeia.

No Reino Unido, o problema assume outra forma, mas não é menos sério. A Comissão Eleitoral confirma que a 7 de maio de 202G haverá eleições locais em Inglaterra, bem como eleições para o Parlamento escocês e para o Senedd galês. Este calendário surge num momento particularmente ingrato para Keir Starmer. A Reuters já descreveu o teste eleitoral que o primeiro-ministro enfrenta e o desgaste do Labour em bastiões onde o Reform UK e os Verdes crescem à custa do desencanto com o governo. Num país onde a economia continua frágil e a confiança política escassa, uma nova escalada do preço da energia e o piorar das dificuldades económicas trazidas pelo Brexit, pode funcionar como acelerador da direita populista de Nigel Farage e como fator adicional de fragmentação do voto anti-conservador. Starmer enfrenta, assim, a clássica armadilha do centro-esquerda europeu: governar em tempos de crise mundial com eleitorados que exigem simultaneamente proteção, autoridade e mudança.

Em Espanha, o caso é politicamente mais subtil. Pedro Sánchez tem sustentado uma posição internacional que, no essencial, encontra respaldo no direito internacional e na prudência estratégica europeia. E muito bem. Madrid recusou o uso das bases para ataques ao Irão e reafirmou agora que não participará numa missão militar no Estreito de Ormuz por considerar a guerra contrária à legalidade internacional. Essa posição tem racionalidade externa e até utilidade diplomática. O problema de Sánchez é interno. A sua capacidade de governar continua dependente de uma coligação frágil e de apoios à esquerda para quem o antiatlantismo é mais do que reflexo, é identidade. Cabe mesmo sublinhar, a fragilidade desta maioria e a dependência do PSOE em relação à esquerda radical, independentista e até aos ex-terroristas da ETA. Nessa família política convivem impulsos abertamente hostis à NATO, à política americana e, em certos sectores, uma indulgência antiga para com experiências latino-americanas que nunca foram propriamente modelos de liberalismo pluralista, a Venezuela para os mais esquecidos. Sánchez tenta vestir a linguagem do direito, mas governa encostado a forças que leem o mundo em bloco ideológico.

É precisamente aqui que a guerra produz os seus vencedores políticos mais perigosos. Não apenas porque fortalece a extrema-direita nacionalista, que lucra com a sensação de declínio, mas também porque reanima uma extrema-esquerda para quem cada crise internacional serve para reabrir a velha fantasia da rutura com a NATO, com os Estados Unidos e com a ordem atlântica. Uns prometem a fortaleza nacional, outros prometem a pureza anti-imperialista, mas ambos prosperam no mesmo terreno: a falência percebida do centro em proteger prosperidade e ordem ao mesmo tempo. A crise do Irão pode, por isso, funcionar como catalisador de um duplo radicalismo europeu, um à direita e outro à esquerda, que se alimentam mutuamente enquanto fingem combater-se.

A tentação, perante este quadro, é moralizar demasiado depressa. Não basta dizer que os populistas são oportunistas. São, mas isso nunca chegou para os derrotar. O que os torna perigosos não é a sua retórica, é a capacidade de ocupar o vazio deixado por elites que parecem sempre reagir um passo tarde. Se a guerra prolongar o choque energético, se a inflação voltar a corroer rendimentos, se a Europa continuar a parecer dependente, dividida e incapaz de projetar força própria, então a colheita eleitoral dos extremos será uma consequência lógica, não um acidente. E será nesse momento que perceberemos que os maiores vencedores desta crise talvez nem estejam em Teerão, em Washington ou em Jerusalém, mas nas urnas europeias.

O verdadeiro perigo para a Europa não é apenas pagar mais pela energia. É pagar politicamente pela sua vulnerabilidade. Uma união que depende do exterior para se aquecer, para se defender e para estabilizar a sua vizinhança torna-se mais vulnerável à pedagogia dos charlatães. E os charlatães, como a história europeia recorda com demasiada frequência, raramente chegam ao poder prometendo destruir a ordem. Chegam prometendo salvá-la.

A resposta europeia a esta nova vaga de ansiedade política não pode limitar-se à gestão técnica da crise. A Europa terá de voltar a fazer aquilo que durante demasiado tempo deixou de fazer: explicar. Explicar com clareza às suas populações o que está em causa nesta guerra, quais são os riscos reais para a segurança e para a economia do continente, e sobretudo porque razão a estabilidade internacional continua a ser um interesse vital europeu. Se o debate público ficar entregue apenas às simplificações dos extremos, a narrativa do medo acabará por substituir a análise dos factos. A melhor defesa contra o populismo não é apenas económica, é também política e pedagógica.

Num momento em que os choques externos voltam a testar a resiliência europeia, os governos do continente terão de recuperar a capacidade de falar com franqueza aos cidadãos, de explicar custos e escolhas e de reconstruir uma ideia de responsabilidade comum que vá além da indignação momentânea. Porque quando as democracias deixam de explicar o mundo, são os demagogos que passam a fazê-lo.