Em 2007, uma foto tirada em Beirute, capital do Líbano, venceu o prestigiado prémio World Press Photo of the Year. O fotógrafo Spencer Platt captou o momento em que um grupo de jovens libaneses, vestidos como se se dirigissem a uma festa tropical, passeavam num vistoso descapotável vermelho por meio dos escombros recentes de uma batalha. A foto foi tirada a 15 de agosto de 2006, o primeiro dia do cessar-fogo de mais uma guerra entre Israel e o Hezbollah.

Filha de imigrantes libaneses, Safaa Dib, nascida no Dubai, é escritora e cronista e vive em Portugal há várias décadas. Ela tem dificuldade em entender o domínio que o Hezbollah exerce sobre todo o país, sobre a sua política, sobre a sua sociedade, sobre a sua desgraça.

Nem sempre foi assim. Depois do fim do Império Otomano, na sequência da I Guerra Mundial, o Líbano passou a ser um protetorado francês onde a diversidade religiosa impunha costumes brandos, ligeireza social e desprezo pela política. Era a ‘Riviera do Médio Oriente’. Mas era também a ‘Suíça do Médio Oriente’, um porto seguro e amigável para alocar investimentos e parquear fortunas.

Para garantir eficiência, perenidade e paz social, o Líbano ‘inventou’ um dos sistemas políticos mais surpreendentes do mundo, concluído no sentido de garantir representatividade à diversidade religiosa. Chamaram-lhe governo confessional: de acordo com a Constituição de 1926, reforçada pelo Pacto Nacional de 1943, o poder público é distribuído entre diferentes comunidades religiosas. A presidência fica com cristãos maronitas, o primeiro-ministro é tradicionalmente um muçulmano sunita e a presidência da Câmara dos Deputados é reservada a um muçulmano xiita.

Estará aqui a raiz do desastre libanês? Safaa Dib acha que não: “O Líbano era uma espécie de paraíso onde todos iam passar férias e era um país muito conhecido pela sua diversidade cultural e religiosa, pela sua tolerância e pela sua liberdade de expressão. Era, portanto, um país à parte em relação a todos os outros países vizinho.”

Israel no horizonte

Onde foi, então, que o paraíso se perdeu? Foi nos seis dias mais radicais de todo o Médio Oriente. Entre 5 e 10 de junho de 1967, Israel e os países árabes envolveram-se num confronto que estilhaçou para sempre (até hoje) o Médio Oriente. O Líbano não faz parte do rol de implicados e essa terá sido a sua desgraça: para o país convergiram milhares de refugiados palestinianos, que alteraram profundamente o equilíbrio social e religioso e produziram a gérmen da radicalização.

“Uns querem manter-se à parte do conflito, outros querem envolver-se mais e claro que a partir de uma certa altura é que chega a um conflito armado em 1975, em que milícias cristãs entram em conflito com palestinianos e fações pró-palestinianas e muçulmanas e então a partir daí há uma guerra civil, que só termina em 1990”. O paraíso tinha-se perdido, aparentemente para sempre.

“Ora, isso cria tensões sociais muito fortes no país, porque se por um lado havia uma comunidade pró-palestiniana, muçulmana, a apoiar a resistência palestiniana, por outro tínhamos uma maioria cristã, que é bastante expressiva, que não apoiava de maneira nenhuma a resistência palestiniana”. “É uma guerra civil desastrosa, que destrói o país por completo, uma guerra terrível, muito à base do ‘olho por olho, dente por dente’, que só acaba com a intercessão de outros países como a Arábia Saudita e alguns países europeus, que conseguiram chegar a um acordo de paz”.