Se no princípio era o verbo, no final, quiçá, serão os museus. Enquanto lugar de questionamento e interpelação. Não como cápsulas do tempo estagnadas, mas como lugares que refletem os muitos tempos da Humanidade. Passado, presente e futuro, claro. E que não se furtam às malaises do seu tempo. Nem à demanda de novas abordagens para cativar o público, assumindo-se como espaços vivos e para ser vividos. Espelho da jornada coletiva da Humanidade.

Exemplo disso, em Portugal, é o MACAM – Museu de Arte Contemporânea Armando Martins, inaugurado a 22 de março de 2025 e que assinala este fim de semana o seu primeiro ano de existência. A coleção, com mais de 500 obras, é um dos acervos privados mais importantes do país. Serão dois dias de festa para dar a conhecer a renovação da exposição permanente que terá um momento particularmente simbólico. Falamos da reunião dos quatro painéis da “Alfaiataria Cunha”, criados em 1913, por Almada Negreiros. Aquela que é primeira encomenda profissional do artista encontrava-se dispersa entre o MACAM e o Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian. O público poderá agora apreciar a composição tal como foi idealizada há mais de um século, fruto da cooperação entre as duas entidades. Durante o fim de semana, o MACAM terá horário alargado e acesso livre, com um roteiro que cruza artes visuais com literatura e performance.

Em abril, será a vez de o Muzeu – Pensamento e Arte Contemporânea DST abrir portas, em Braga, como montra de uma coleção que reúne 1500 obras de 240 autores. O edifício de quatro andares integra um campus que conta com edifícios de dois Pritzkers – Siza Vieira e Souto de Moura –, onde, em breve, nascerá o Living Lab, uma microcidade projetada por outro Pritzker, Norman Foster. O programa inaugural do Muzeu, “Abrir Abril”, integra parcerias com várias entidades e expressões artísticas, entre elas um ciclo de jazz com o Hot Clube de Portugal, uma série de conferências que assinalam os 50 anos da Constituição Portuguesa, em colaboração com a Ephemera — Biblioteca e Arquivo de José Pacheco Pereira, um Clube da Escuta, workshops de filosofia para crianças e ainda um ciclo de dança e performance.

Em 2026, uma vaga de novos museus marcará a paisagem cultural um pouco por todo o mundo. Desde um projeto futurista dedicado à ficção científica em Los Angeles até um espaço que é uma homenagem poética à arquitetura tradicional chinesa, em Suzhou. E são muitos os museus – alguns dos quais desenhados por arquitetos de renome mundial – que ilustram o poder que têm na reinvenção das cidades enquanto polo de atração de visitantes de todo o mundo. Este fenómeno tem um nome, aliás. “Efeito Bilbao”. Pelo impacto que a abertura do museu Guggenheim teve naquela cidade espanhola, em 1997.

Na segunda década do século XXI, museus e espaços culturais atestam a importância das artes e das humanidades para o desenvolvimento da economia. Ainda haverá dúvidas sobre isso?

China rende-se à arte contemporânea

A China não desilude quando se trata de pôr de pé um edifício que se quer icónico. Após dois anos e meio de construção, o Museu de Arte Contemporânea de Suzhou prepara-se para abrir ao público ainda este ano. Com uma área total que ronda os 60 mil m2, conta com quatro salas de espetáculos, quatro salas dedicadas a exposições, jardins tradicionais chineses e uma roda-gigante com 120 metros de altura, os “Olhos de Suzhou”. Situado na margem leste do Lago Jinji, o museu foi projetado pelo reputado ateliê Bjarke Ingels Group, mais conhecido como BIG. É uma das aberturas mais aguardadas em 2026.

Nave espacial ‘Lucas’ descola no outono

Uma nave espacial aterrou em Los Angeles. Poderia muito bem ter entrado num dos filmes do seu mentor, George Lucas. Fãs da Guerra das Estrelas, preparem-se. Em setembro abrirá o Museu de Arte Narrativa Lucas, fundado pelo aclamado realizador e pela sua mulher, Mellody Hobson. E, claro, serão muitos os adereços e figurinos daquela saga de ficção científica. Darth Vader, C-3PO e R2-D2 incluídos. Mas o novo museu contará, também, com uma coleção de mais de 40 mil peças, incluindo pinturas de Frida Kahlo e Diego Rivera, ou textos e pranchas de BD do lendário Jack Kirby, cocriador de grande parte do universo Marvel Comics.

Amesterdão tecno-experimental

Um armazém colossal do século XIX, no complexo industrial Van Gendt Hallen, em Amesterdão, dedica 8.000 m2 a um novo museu, o DRIFT, que representa o culminar de 18 anos de trabalho dos artistas Lonneke Gordijn e Ralph Nauta. Aqui, joga-se na interseção entre arte, tecnologia e natureza, num espaço que quer ser “um diálogo entre arte e arquitetura”, como sublinha Javier Zubiria, fundador do ateliê responsável pelo projeto, o zU-studio.

Citroën-Pompidou?

As metamorfoses acontecem. Qual crisálida, a antiga fábrica automóvel da Citroën, em pleno coração da capital belga, vai transformar-se no novo espaço KANAL-Pompidou, com 40 mil m2. Um trio de arquitetos – EM2N, noArchitecten & Sergison Bate & Will Jennings – imaginou este espaço que acolherá 350 obras de artistas como Matisse, Picasso e Mondrian, entre muitos outros. Será um Centro Pompidou “fora de portas”, já que o emblemático centro de arte em Paris estará fechado para obras até 2030. Vamos a Bruxelas?

Casal Obama deixa a sua marca

Não sabemos se Barack Obama, ex-presidente dos EUA, tem sentido a falta dos holofotes. Certo é que estes irão apontar ao Centro Presidencial Obama, a inaugurar este ano. Além de celebrar o seu legado, pretende ainda valorizar o bairro South Side, de Chicago, onde a mulher, Michelle Obama, cresceu. O projeto é da dupla de arquitetos Tod Williams e Billie Tsien, conta com uma biblioteca pública, obras de artistas contemporâneos e peças que Obama reuniu durante os dois mandatos presidenciais. O espaço envolvente terá um campo de basquetebol e um parque infantil. Chicago mexe.

A new V&A in town

A zona leste de Londres agita-se e, sobretudo, muda de ‘feições’. Um exemplo gritante é o novo ‘volume dinâmico’ do Victoria & Albert (V&A) East, num projeto que leva a assinatura dos arquitetos irlandeses O’Donnell +Tuomey. Organizado verticalmente, foi pensado para acolher exposições temporárias, uma loja e um café. E três terraços com vista sobre o parque envolvente. Exploramos?