Maria, hospedeira da Emirates Airlines, vive numa torre residencial no Dubai — um condomínio com piscina e ginásio a poucos minutos do aeroporto. É nesse cenário de aparente normalidade que recebe alertas de emergência no telemóvel a avisar para uma ameaça de míssil. Afasta-se das janelas e, pouco depois, ouve explosões ao longe.
A realidade que agora enfrenta contrasta com a estabilidade que procurava quando se mudou para os Emirados Árabes Unidos, há quatro anos. Hoje, teme os efeitos da crise económica que atinge todas as companhias aéreas da região: cortes salariais e de regalias, incerteza quanto ao pagamento do prémio anual e uma pressão constante para manter o emprego.
O impacto sente-se também no céu. Em circunstâncias normais, antes do início da guerra na região do Golfo, levantavam voo diariamente cerca de três mil aviões das companhias Emirates, Qatar Airways e Etihad. Agora, esse número caiu para menos de mil.
Maria ganha cerca de três mil euros por mês, resultado de um salário base de cinco mil dirhams (aproximadamente 1.172 euros líquidos e livres de impostos), acrescido das horas de voo — que normalmente atingem 100 por mês — e respetivas ajudas de custo. Agora, os cortes salariais podem vir a ser devastadores. “Este mês fiz apenas seis viagens (ida e volta) até África, Ásia e Europa”, conta ao Jornal Económico (JE). Ou seja, cerca de 30 horas de voo, um terço do normal, espelhando a crise que se abate sobre o setor.
A gestão do trabalho depende de uma aplicação utilizada pela companhia aérea, que organiza os horários mensais dos tripulantes e permite à empresa colocá-los em folga ou em standby. É através desta ferramenta que sabem se irão ser mobilizados para um voo ou se permanecerão de fora, criando uma expectativa constante sobre quando e quantas horas irão trabalhar. “Por enquanto quero continuar nos Emirados”, diz ao JE.
Embora os contratos de trabalho tenham duração de três anos e possam ser renovados, a estabilidade é relativa. “Ver pessoas despedirem-se é algo que acontece regularmente nesta profissão”, explica a hospedeira. Com o escalar do conflito aumentou também a comunicação com os trabalhadores. “Recebemos mensagens a proibir a divulgação de imagens do aeroporto”, conta a hospedeira.
A organização interna é rigorosamente estruturada. “Os managers enviam constantemente links para videochamadas, destinadas a esclarecer dúvidas e a reforçar procedimentos”, acrescenta. A mensagem transmitida é sempre a mesma: a segurança dos trabalhadores continua a ser a principal prioridade da companhia aérea. Contactada pelo Jornal Económico, a Emirates afirmou que “não está a comentar a situação em curso nem eventuais temas associados, diretos ou indiretos”.
A aviação é um motor importante da economia dos Emirados Árabes Unidos, e a Emirates — a companhia aérea com maior tráfego internacional do mundo — é a sua marca mais reconhecida, tendo transformado o Dubai num grande hub global ao longo de 40 anos.
Contactados pelo Jornal Económico, vários tripulantes portugueses ao serviço das companhias aéreas do Médio Oriente não pensam em voltar já para Portugal. E explicam que o prolongamento dos tempos de voo é um dos maiores fatores de stresse. O que antes era uma viagem de oito horas pode passar a 12 ou mais, devido a desvios para evitar zonas fechadas. A fadiga acumula-se rapidamente, mas o trabalho exige que a tripulação se mantenha alerta e profissional durante todo o percurso. “Não podemos falar de temas como política, guerra ou religião”, conta um comissário de bordo.
Desde que o conflito se intensificou, as 20 maiores companhias aéreas cotadas em bolsa perderam, no conjunto, cerca de 53 mil milhões de dólares (45,8 mil milhões de euros) em valor de mercado, refletindo o alarme dos investidores face à duração incerta da crise e ao impacto económico prolongado. Entre os efeitos mais imediatos estão a suspensão ou desvio de centenas de voos diários que sobrevoavam o Irão, Iraque, Israel, Jordânia e arredores; o aumento significativo dos custos de combustível devido a rotas mais longas (desvios para sul pela Arábia Saudita ou para norte pelo espaço aéreo da Turquia e Cáucaso); a queda na procura por viagens para a região, afetando especialmente companhias do Golfo (Emirates, Qatar Airways, Etihad) e europeias com forte exposição ao Médio Oriente.
Devido ao conflito, a Qatar Airways transferiu 20 aviões para um aeroporto remoto no leste de Espanha. A decisão reflete a redução da programação de voos da companhia, que necessita de menos aeronaves devido às restrições de espaço aéreo que limitam as operações a partir do seu hub no Aeroporto Internacional de Hamad, em Doha. “Devido às atuais circunstâncias excecionais na região, e à consequente perturbação das operações de voo, fora do nosso controlo, a Qatar Airways posicionou algumas das suas aeronaves em aeroportos selecionados”, explicou a companhia em comunicado.
Sara Nelson, presidente da Associação Internacional de Tripulantes de Cabine, pediu aos governos do Golfo que priorizem a segurança de passageiros e tripulação. “O profissionalismo e a coragem deles estão a manter as pessoas seguras. Mas a sua dedicação deve ser acompanhada pelos mais altos padrões de proteção à segurança”, disse. “Os governos devem garantir que os trabalhadores da aviação e os passageiros nunca sejam expostos a riscos”, acrescentou.
Carlos é comissário de bordo e vive num apartamento perto do aeroporto do Dubai. Há mais de uma semana que está parado. Em março fez apenas três voos, quando o normal seria fazer pelo menos seis. Viajou para os Estados Unidos e Índia e tem alguns voos já programados para abril. No entanto, vários outros que estavam planeados acabaram por ser cancelados. A vida, no geral, mantém-se relativamente normal, mas com uma diferença importante: está a trabalhar menos e, consequentemente, deverá receber menos dinheiro. “Há poucos passageiros, o que significa que não é necessária uma equipa tão grande em cada voo”, diz ao JE. O receio de despedimentos é real. Continua a ter despesas, sobretudo com alimentação, e agora tudo depende do salário que vier a receber — só assim saberá se vai conseguir cobrir todas as contas e se valerá a pena continuar a trabalhar no Médio Oriente.
Enquanto o conflito persistir, o regresso à normalidade permanece indefinido — e o futuro continua dependente de fatores que escapam ao controlo de quem trabalha a 30 mil pés de altitude.