Instalação de Anne Imhof em Serralves

O aço frio, marcial, intriga. O perímetro fechado, intransponível, austero, deixa apenas entrever assentos. Circundamos a instalação. O corredor estreita. A profundidade de campo desaparece. O aço torna-se mais frio e impositivo. O espaço inacessível parece agora mais asfixiante. Qual a mensagem que Anne Imhof quer transmitir? Controlo? Mordaça? Isolamento? O que nos incomoda, afinal, é o que queremos ver e não conseguimos. Mas o silêncio do aço não nos afasta.

A primeira exposição individual da artista alemã em Portugal é composta por obras na sua maioria inéditas e concebidas especificamente para um espaço inundado de luz, branco, assinado por Álvaro Siza Vieira. Imhof testa os limites da arquitetura sem nunca a violentar. Ainda digerimos o impacto de “Arena”, escultura que evoca “controlo de acesso, gestão de filas, contenção de multidões”, logo à entrada do Museu de Serralves, quando descemos a rampa e começamos a vislumbrar uma imensa plataforma de saltos. Sem piscina, ainda que inspirada no desenho e nas proporções da estrutura de saltos que ainda hoje se encontra no interior da piscina de Pripyat, em Chernobyl.

Chernobyl evoca imagens tremendas. Despojadamente só, a plataforma provoca mais emoções do que se poderia antecipar. Anne Imhof não pretende recriar esse lugar ferido de radioatividade. Antes quer remeter para o significado de abandono a que foi votada na sequência da evacuação da cidade. Outrora espaço de lazer e de confiança institucional, tornou-se testemunho de um colapso histórico.

O título da exposição é ‘furtado’ a Theodor W. Adorno e Max Horkheimer, da obra que escreveram durante o seu exílio nos EUA, “Dialética do Esclarecimento”. “Fun ist ein Stahlbad”: o divertimento é um banho de aço. Descodificado, remete para a ideia de que o lazer é um produto pronto a usar, pensado para não permitir o questionamento.

A pertinência não poderia ser maior: vivemos num tempo cada vez mais acelerado, cada vez mais autista e subjugado ao algoritmo. Nova ‘bofetada’. A piscina vazia, arrepiantemente negra e oca, instalada no Pátio do Ulmeiro. No exterior de Serralves. Inacessível. Sem utilização. O contraste não poderia ser maior se pensarmos numa outra obra projetada por Siza, a Piscina das Marés, em Leça da Palmeira. Oceânica, aberta ao horizonte e às pessoas. “Stahlbad”, de Imhof, lembra um buraco negro que não permite qualquer utilização. Uma vez mais a promessa de lazer não se cumpre.

Este não é um percurso linear. Cabem nele pinturas que nos ajudam a recuperar alguma serenidade. Será? Anne Imhof não dá tréguas. Apenas nos permite recuperar o equilíbrio para encararmos “Citizen”, o novo filme que aqui tem estreia mundial. Resistência? Esperança? Mensagens poderosas nos tempos que correm. Em todos os tempos, aliás.

Anne Imhof, “Fun ist ein Stahlbad” | até 12 abril | Museu de Serralves, Porto