O responsável de obrigações da Generali Asset Management (Generali AM), Mauro Valle, considera que passado um ano do Dia da Libertação, dia em que o Presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou a aplicação de tarifas a vários parceiros comerciais, mergulhando os mercados no vermelho, estas tarifas continuam a condicionar o mercado, que agora está pressionado pelo conflito no Irão e pelos receios de um aumento na inflação.

“Ao longo do último ano, algumas coisas mudaram, embora o mercado ainda enfrente certos desafios que não devemos subestimar. Até há poucas semanas, a perspetiva do mercado centrava-se na tendência desinflacionista, na absorção das taxas por parte dos consumidores e das empresas e na monitorização da probabilidade de os bancos centrais continuarem a cortar as taxas de juro oficiais. A guerra no Irão está a mudar completamente o cenário, que é agora dominado por perturbações geopolíticas, riscos no fornecimento de energia e incerteza relativamente aos efeitos secundários da inflação. O principal desafio é que os bancos centrais são agora forçados a equilibrar o controlo da inflação com os crescentes riscos de queda do crescimento, com muito menos visibilidade do que há um ano”, descreve.

Mauro Valle acrescenta que esta viragem geopolítica “deslocou” o foco da desinflação para o risco energético, obrigando os bancos centrais a “equilibrar inflação e crescimento num contexto de menor visibilidade”.

Mercado obrigacionista incorpora prémio de risco mais elevado

O responsável da Generali AM adianta que o mercado obrigacionista “está a incorporar um prémio de risco estruturalmente mais elevado”, com a “subida dos rendimentos nos Estados Unidos e na zona euro a forçar a Reserva Federal norte-americana (Fed) a manter as taxas inalteradas e a poder levar o Banco Central Europeu (BCE) a novos aumentos” para conter a inflação.

O analista considera que neste momento é “bastante difícil” determinar os níveis de equilíbrio das taxas de juro, pelo que a gestora de ativos “está a monitorizar” se os picos atingidos nos últimos dias podem representar um teto.

“A tendência para uma curva de juros mais acentuada estava prestes a terminar nos primeiros meses do ano; em março, observámos um achatamento acentuado, impulsionado pelo aumento dos rendimentos dos títulos de curto prazo. Num futuro próximo, à medida que os mercados financeiros começarem a estabilizar, precisaremos de observar os sinais de que o mercado começará a exigir um prémio mais elevado devido a um potencial aumento das despesas públicas”, explica.

Mauro Valle acrescenta que as políticas protecionistas do Presidente Trump tiveram duas consequências nos meses seguintes ao anúncio das tarifas. “O primeiro fator foi o mercado obrigacionista, onde os rendimentos dos títulos do Tesouro americano a 10 anos subiram acentuadamente. O segundo, que ainda persiste em grande parte, foi a desvalorização do dólar face a moedas como o euro”, assinala.

“O dólar, de facto, depreciou-se nos últimos meses devido a outros fatores, como os défices gémeos, a geopolítica e a fragmentação dos fluxos de capitais globais. No entanto, durante estes recentes episódios de forte aversão ao risco, pode ainda fortalecer-se taticamente, refletindo o seu papel como ativo de liquidez. Resta saber se, após esta crise, o dólar continuará a ser percebido como um ativo de refúgio seguro ou não”, conclui.