A escalada do conflito com o Irão voltou a colocar o mundo em sobressalto energético. Sempre que o Médio Oriente treme, o preço do petróleo dispara, as economias vacilam e, na Europa, a dependência externa volta a estar na ordem do dia. No meio desta instabilidade, em Portugal continuamos a não nos apercebermos da nossa sorte, e clara vantagem.

Diz-se frequentemente que “Portugal não tem petróleo”. Mas isso já não é verdade — pelo menos não no século XXI. A realidade é outra: Portugal tem petróleo. Só ainda não o trata como tal. Esse petróleo não jorra do subsolo, mas cai do céu, sopra do Atlântico e corre nos nossos rios. Chama-se sol, vento e água.

Num mundo onde a energia é cada vez mais uma arma geopolítica, a verdadeira riqueza de um país mede-se pela sua capacidade de produzir energia internamente.

As energias fósseis tradicionais (petróleo e gás) têm problemas estruturais:

  • estão concentradas em regiões instáveis
  • são finitas
  • sujeitas a economias inteiras a choques externos
  • extremamente poluentes, no caso do carvão
  • estão na génese do maior desafio que a humanidade enfrenta atualmente, o das emissões de gases com efeitos de estufa

As renováveis resolvem todos estes desafios:

  • estão distribuídas (e Portugal tem abundância)
  • são inesgotáveis à escala humana
  • e reduzem drasticamente a exposição a crises internacionais

Ou seja, cada parque eólico, cada barragem, cada central solar é uma pequena declaração de soberania.

O paradoxo português

Portugal já provou que consegue. Em vários momentos, operou quase exclusivamente com energia renovável, estando entre os países europeus com maior incorporação de fontes limpas. E, no entanto, continua a agir como um país pobre em energia. Ou seja, o país tem recursos de excelência, mas ainda não tem a urgência estratégica de quem depende deles. Se o nosso “petróleo” é renovável, então temos de o explorar com a mesma intensidade com que outros exploraram combustíveis fósseis.

Isso implica decisões claras:

  1. Hídrico como bateria nacional
    Não basta produzir — é preciso armazenar. O reforço de barragens com capacidade de bombagem pode transformar Portugal num sistema energético resiliente e exportador.
  2. Eólico em escala, incluindo offshore
    O vento atlântico é uma vantagem competitiva rara na Europa. Subaproveitá-lo é um erro estratégico.
  3. Solar sem hesitação
    Com uma das maiores exposições solares do continente, cada atraso na expansão fotovoltaica é uma oportunidade perdida. Da escala residencial, às comunidades de energia e à escala industrial, a energia solar consegue elevados níveis de eficiência em todos estes cenários e é hoje, a energia mais barata.

Eletrificar para libertar

Produzir energia limpa não chega — é preciso substituir o consumo de petróleo.

Aqui entra a mobilidade elétrica, que deve deixar de ser vista como uma escolha individual e passar a ser uma prioridade nacional:

  • Transportes públicos 100% elétricos
  • Logística e mercadorias progressivamente eletrificadas
  • Incentivos claros à transição no setor privado

Cada veículo elétrico não é apenas uma escolha ambiental, é menos dependência de petróleo importado. Esta transição não é apenas técnica. É económica, política e até cultural. Porque Portugal pode reduzir a sua fatura energética externa, estabilizar preços internos, atrair novos investimentos industriais e posicionar-se como exportador de energia limpa.

Mas isso exige uma mudança de paradigma. De alternativa energética, as renováveis têm de passar a ser vistas como o nosso principal recurso estratégico.

A guerra no Irão não é apenas sobre território ou influência. É, em grande medida, sobre energia. Porque cada crise energética global reforça a evidência simples de que quem controla a sua energia, controla o seu destino. Embora Portugal não tenha petróleo no sentido tradicional, tem algo melhor, e mais sustentável. Não é uma questão de recursos, mas sim de ter uma visão para os tratar como aquilo que realmente são: o nosso verdadeiro petróleo.