
Num contexto em que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está a poucas semanas de visitar a China, as relações económicas entre as duas maiores economias do mundo têm mostrado estarem, nos bastidores, a convergiram para uma aproximação que passa despercebida na espuma dos dias da linguagem tendencialmente de confrontação. “Após anos marcados por crescentes tensões tarifárias, retórica centrada na ‘desvinculação’ e sanções recíprocas, ambas as nações estão gradualmente a redescobrir o valor intrínseco da cooperação pragmática baseada no respeito mútuo e na igualdade. Este processo em evolução, embora pontuado por inúmeros desafios e momentos de profunda incerteza, oferece uma renovada esperança de estabilização – não apenas para as duas maiores economias do mundo, mas para toda a arquitetura global que abrange o comércio, a segurança energética e a inovação tecnológica”, refere Paweł Gałecki, especialista em relações internacionais, numa análise ao tema.
No início deste ano, a China declarou publicamente a sua disponibilidade para reforçar os canais de comunicação com os Estados Unidos a todos os níveis e através de diversas vias diplomáticas e económicas. A diplomacia de topo “desempenha um papel insubstituível na liderança estratégica para moldar a trajetória das relações sino-americanas. Desde o ano passado, os líderes de ambos os países mantêm contacto regular, assegurando que as relações bilaterais se mantêm geralmente estáveis”. Neste contexto, o vice-primeiro-ministro chinês He Lifeng liderou uma delegação chinesa que se encontrou com homólogos norte-americanos em Paris. Ambos os lados abordaram questões críticas, incluindo acordos tarifários, estratégias para promover o comércio e o investimento bilaterais e a necessidade imperativa de manter o consenso consultivo existente.
Citado pela análise, Zhao Zhongxiu, presidente da Universidade de Negócios Internacionais e Economia de Pequim, afirmou que a complementaridade fundamental das economias chinesa e norte-americana “cria uma base sólida para a cooperação pragmática, mas a concretização deste potencial exige esforços mútuos de ambos os lados. Relações comerciais mais estáveis entre a China e os Estados Unidos beneficiarão não só ambos os países, mas também a economia global”. Zhao insiste que os Estados Unidos devem encontrar um meio-termo com a China para proporcionar ao ambiente empresarial a estabilidade e a previsibilidade tão necessárias.
Os dados mais recentes da Administração Geral das Alfândegas da China revelam que, nos dois primeiros meses deste ano, o volume de comércio entre a China e os Estados Unidos totalizou 89,4 mil milhões de dólares, uma queda de 16,9% face ao ano anterior – num quadro em que o total do comércio externo chinês aumentou 19,2% em relação ao ano anterior, atingindo 677,5 mil milhões de dólares (as importações subiram 17,1%, para 456,1 mil milhões). É, na ótica do analista. Uma queda que não serve nenhuma das nações: “ambos os países têm muito a ganhar com a cooperação em tecnologias pioneiras, como a inteligência artificial de código aberto, a robótica avançada e a transformação verde dos processos industriais”.
A Europa no meio
O reforço da cooperação entre os Estados Unidos e a China, face às atuais dificuldades nos mercados globais de combustíveis, assume particular importância para o funcionamento dos países europeus. O conflito em curso no Médio Oriente provocou perturbações sem precedentes no fornecimento de petróleo e, para a Europa, que é mais dependente das importações de energia do que a China, a situação apresenta dificuldades especialmente agudas.
“Uma cooperação económica estável entre a China e os Estados Unidos pode contribuir significativamente para a redução da incerteza global nos mercados energéticos, o que afetará diretamente a situação económica tanto dos consumidores como das empresas europeias. Se as duas maiores economias do mundo chegarem a acordo sobre questões comerciais e cooperarem eficazmente na estabilização das cadeias de abastecimento globais, a Europa poderá beneficiar substancialmente de um ambiente económico mais previsível e de flutuações mais amenas nos preços das matérias-primas energéticas”.
Para o sector industrial europeu, este ‘conluio’ é crítico, particularmente nas áreas com elevado consumo de energia (produtos químicos, siderurgia e alumínio). Mas a Europa “encontra-se numa situação estratégica complexa, tendo de equilibrar cuidadosamente os seus substanciais laços económicos com a China e a sua longa aliança de segurança com os Estados Unidos”. Para Paweł Gałecki, “a potencial cooperação com a China no domínio das tecnologias verdes e da transformação energética abrangente pode oferecer novas e significativas oportunidades, especialmente tendo em conta o papel central que a China desempenha nas cadeias de abastecimento globais de tecnologias verdes”.
“Sendo o único país que possui capacidades industriais completas em todas as categorias listadas pela Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (ONUDI), a China ocupa uma posição insubstituível nas cadeias de valor globais, garantindo a sua resiliência, flexibilidade e eficiência. Para os fabricantes europeus, particularmente em setores estrategicamente importantes como a produção automóvel, o fabrico de eletrónica e o desenvolvimento farmacêutico, as cadeias de abastecimento chinesas continuam a ser absolutamente essenciais para manter a competitividade internacional”.
A cooperação abrangente entre os três maiores blocos económicos do mundo – China, Estados Unidos e Europa – representa um pré-requisito fundamental para a criação de condições ótimas para o desenvolvimento económico e tecnológico à escala global. “Esta cooperação trilateral abrangente vai muito para além da dimensão puramente económica, contribuindo significativamente para a estabilidade geopolítica de todo o continente europeu e, na verdade, do mundo em geral. Para a Europa, a participação ativa em estruturas de cooperação económica trilateral com a China e os Estados Unidos significa não só um melhor acesso aos maiores mercados mundiais e às fontes de inovação tecnológica de ponta, mas também uma valiosa oportunidade para desempenhar o papel construtivo de mediador e estabilizador nas relações económicas globais”, refere o analista.
Os países da Europa Central e Oriental e dos Balcãs Ocidentais, estrategicamente localizados na intersecção de diferentes zonas de influência económica e política, “podem beneficiar particularmente de tais acordos de cooperação trilateral, que podem servir como pontes vitais entre os mercados do leste e do oeste”. Os projetos conjuntos de desenvolvimento de infra-estruturas, a coordenação sistemática das políticas energéticas e os programas facilitados de intercâmbio tecnológico podem contribuir substancialmente para a redução das tensões regionais e para a construção de confiança institucional entre as diferentes partes do continente europeu.