Durante décadas, parecia condenado ao estatuto de relíquia — uma peça de coleção para audiófilos e saudosistas. Mas o disco de vinil voltou a girar no centro da indústria musical, e fá-lo agora com números que já não podem ser ignorados.

Dados recentes da Recording Industry Association of America mostram que, em 2025, foram vendidos cerca de 46,8 milhões de discos de vinil nos Estados Unidos, contra 29,5 milhões de CDs. A ultrapassagem, que em 2022 quebrou um jejum de 35 anos, consolidou-se — e alargou-se.

Mais do que uma vitória em unidades, trata-se de uma afirmação económica. O vinil gerou receitas na ordem dos 1,04 mil milhões de dólares (cerca de 960 milhões de euros), enquanto os CDs ficaram pelos 312 milhões de dólares (aproximadamente 288 milhões de euros). Em termos simples: o vinil vale hoje mais de três vezes o mercado do CD.

A explicação não reside apenas na nostalgia. O vinil tornou-se um produto premium, com preços mais elevados, edições especiais e um apelo tangível num mercado cada vez mais dominado pelo intangível do streaming. É uma experiência — não apenas um formato.

Ainda assim, importa colocar os números em perspetiva. Apesar do crescimento contínuo — são já quase duas décadas consecutivas de subida — o vinil representa apenas uma fração do mercado global de música, amplamente dominado pelas plataformas digitais.

Um pouco de história

O vinil mudou a forma de produzir e ouvir música. Chamado bolacha, long Play ou simplesmente LP, veio ao mundo em 1948, pelas mãos do Norte americano Peter Goldmark, tendo como madrinha a Columbia Records pondo de imediato a girar no mercado o disco goma-laca. No início dos anos 90 o compact disc, ou seja, o CD quase o riscou desta indústria. A sua morte parecia inevitável, mas ressuscitou e dá música aos colecionadores. Também responsáveis pela sua sobrevivência. Mas os Dj de hip hop, rap, tecno e electro também deram uma ajuda. Há sons únicos como fazer o disco tocar de trás para a frente. Tudo isto levou alguns jovens ao baú da família à procura de álbuns para os colocar a girar de novo.

O disco de vinil possui ranhuras em forma espiralada que conduzem a agulha do gira-discos da borda externa até ao centro no sentido do horário. Trata-se de uma gravação analógica, mecânica. São estes sulcos microscópicos que fazem a agulha vibrar. Esta vibração transforma-se em sinal elétrico, sendo depois amplificado e transformado em som audível, ou seja, em música. O som tem algumas imperfeições, nomeadamente chiadeira entre as músicas, mas os especialistas garantem que este está mais próximo da realidade. Os graves são mais macios e quentes. Um pormenor delicioso: quem não se recorda do disco terminar e continuar a rodar, a rodar, a rodar…

O que estes dados revelam é menos um regresso ao passado e mais uma reinvenção do consumo cultural: num mundo de acesso imediato e infinito, há ainda espaço — e valor — para o objeto físico, para o ritual e para o som que se ouve… e se vê girar.