Na baixa de Coimbra, o Beco do Forno tornou-se palco de uma rivalidade pouco comum entre dois restaurantes, situados a poucos passos de distância um do outro. O histórico Zé Manel dos Ossos, aberto desde 1959 e conhecido pelos célebres ossos do espinhaço de porco, cozidos lentamente num molho rico e ligeiramente picante, enfrenta agora um concorrente chamado Rui Manel dos Ossos. A semelhança dos nomes acabou por levar o conflito para a esfera judicial. Carla Simões, detentora da marca “Zé Manel dos Ossos” e atual responsável pela exploração do restaurante, avançou com uma providência cautelar contra o vizinho. “A marca está registada em nome do meu marido [José Mário Simões], que era empregado da casa, mas ficou à frente do negócio após a morte do fundador”, explica ao Jornal Económico.

Existe ainda uma terceira camada neste imbróglio. Após a morte do marido de Carla, em 2023, foi proposta a continuidade da exploração do restaurante aos funcionários que já lá se encontravam. “No final do segundo ano, esses funcionários enviaram-me uma carta a comunicar a intenção de cessar a exploração. Justificaram a decisão com a existência de um novo projeto, mas nunca me foi explicado em que consistia esse mesmo projeto”, refere a detentora da marca da “Zé Manel dos Ossos”.
Do outro lado da barricada está Rui Ferreira, antigo funcionário do Zé Manel dos Ossos, onde trabalhou 37 anos, e que é o responsável pelo novo espaço, aberto há quatro meses, de seu nome Rui Manel dos Ossos. “O Rui sou eu e o Manuel é o nome do meu irmão, que trabalha comigo. Não vejo onde está o problema no nome. Eu sou concorrente, não sou inimigo. Não fui contactado por nenhum advogado nem recebi qualquer notificação”, afirma ao Jornal Económico. O responsável acrescenta que a oferta gastronómica segue a mesma linha da casa original. “Não desperdicei a oportunidade de criar um negócio próprio, com capacidade para 150 lugares.”

A nova gerência
Com o acordo das famílias de José Manuel Ribeiro Franco, proprietário original do edifício e fundador do restaurante Zé Manel dos Ossos, e de José Mário Simões, detentor da marca, a continuidade do negócio ficou assegurada. A gestão foi entregue a Ricardo Benedito (chef do Eliseu dos Leitões), Bruno Benedito (professor) e Heráclito Teixeira (antigo supervisor de vendas numa empresa de torrefação de café), que assumiram a exploração em junho do ano passado, através de um contrato de arrendamento de três anos, com uma renda mensal de três mil euros. “Queremos manter tudo tal e qual como está. É uma das poucas tascas da cidade que se mantém intacta. Não fizemos obras nenhumas nem vamos fazer”, afirma Heráclito Teixeira.
Esta semana, quando o Jornal Económico visitou o espaço, eram muitos os clientes que aguardavam mesa na rua. As paredes do Zé Manel dos Ossos continuam cobertas de mensagens e desenhos deixados ao longo dos anos, num ambiente insólito, onde a vedeta é uma cabeça de javali. Não é o conforto que atrai quem ali vai, mas sim a comida de tacho feita com saber e mão-cheia. Os ossos do espinhaço continuam a ser o prato mais procurado, a par da feijoada de javali ou da chanfana. À hora de almoço, ouve-se música portuguesa, incluindo “Grândola, Vila Morena”. E ao jantar, não revelamos, terá de descobrir
Segundo a equipa de gestão, o modelo de funcionamento aposta na continuidade da tradição. “O segredo da casa é a mística em torno da nossa cozinha de tacho, condimentada, pesada e gordurosa”, diz Heráclito Teixeira. A aposta passa também pela proximidade. Os produtores são da região de Coimbra e asseguram ingredientes chave como batatas, couves, cogumelos e enchidos.

Com cerca de 40 lugares, o Zé Manel dos Ossos mantém uma escala reduzida que, segundo os responsáveis, garante consistência na confeção. “Cozinhar para menos pessoas é a nossa vantagem”, sublinha. Atualmente, cerca de 70% da clientela é internacional, num espaço que preserva uma forte relação com os clientes, perguntando nomes, país de origem, querendo conhecer a sua história.

A proximidade entre os dois restaurantes tem gerado, frequentemente, confusão entre os clientes. “Temos muitas pessoas que fazem reservas, enganam-se e acabam por ir para o outro restaurante, mesmo em frente, julgando que é tudo a mesma coisa”, refere Heráclito Teixeira. A semelhança não se fica pelo nome. “A ementa é praticamente igual”, acrescentam. As muitas semelhanças também provocam equívocos no espaço digital. “Temos críticas no Google de pessoas que foram comer ao outro restaurante e acabam por publicar na nossa página”, conta.

O fundador
José Manuel Ribeiro Franco, conhecido por todos como Zé Manel dos Ossos, nasceu em 1932. Fez a quarta classe na escola primária do Infesto, em Penela, e recordava que foi no dia do exame da quarta classe que calçou, pela primeira vez, uns sapatos. Ainda jovem, seguiu para Coimbra, onde começou a trabalhar numa loja de familiares. Mais tarde, cumpriu o serviço militar e regressou à cidade, onde iniciou o seu percurso na restauração.

Em 1959, resolveu lançar-se sozinho num negócio, tendo arrendado uma casa de vinhos e de pasto, a que poria o nome de Zé Manel. As dificuldades eram muitas, mas foi também nesse contexto que começou a desenhar-se a identidade da casa. Um dia, ao cozer ossos de porco para acompanhar o vinho servido, nasceu um petisco que viria a marcar para sempre o restaurante — os ossos do espinhaço — e que acabaria por se colar ao seu nome, transformando-o no Zé Manel dos Ossos. O filho, António Franco, recorda o que lhe contaram inúmeras vezes. “As dificuldades eram muitas e, quando nasci, nas águas-furtadas do estabelecimento, estava o meu pai, no rés do chão, a pedir 500 escudos emprestados para reformar uma letra bancária”, conta ao Jornal Económico.

Por ali passaram gerações de estudantes, artistas e visitantes de todo o mundo. E muitos deles vão voltando a esta casa com muitas histórias. Uma delas é anterior ao 25 de Abril. No tempo da censura, o barulho das panelas tinha uma função inesperada: era o sinal de aviso de que havia agentes da PIDE. O ruído aumentava e os clientes habituais sabiam que, naquele momento, o melhor era falar dos ossos do porco e não de política.