
O setor financeiro global enfrenta um desfasamento crítico entre a velocidade da inovação tecnológica e a capacidade de supervisão. Um novo estudo internacional coordenado pela Zango AI, apresentado ontem na Câmara dos Lordes, revela que, embora 75% das instituições financeiras já utilizem Inteligência Artificial (IA), a maioria ainda não consegue governá-la de forma eficaz.
A plataforma Zango AI desenvolve soluções de inteligência artificial (IA) aplicadas à conformidade no setor financeiro.
O relatório, intitulado “The Future of AI Governance & Compliance in Financial Services”, alerta que a ausência de normas operacionais comuns está a gerar abordagens fragmentadas e vulnerabilidades que podem evoluir para riscos sistémicos.
Apesar da entrada em vigor de quadros como o EU AI Act na União Europeia, o estudo identifica a falta de uma “camada intermédia” que traduza princípios éticos e legais em práticas auditáveis e escaláveis. Os modelos de governação atuais, desenhados para sistemas estáticos, mostram-se insuficientes perante a natureza adaptativa e autónoma da IA moderna, segundo a análise.
De acordo com a investigação — que envolveu líderes de instituições como Novobanco, Santander, Revolut e Barclays — existem dois entraves principais. Por um lado há um défice de competências – as funções de risco e compliance não têm formação técnica suficiente para acompanhar a complexidade da IA.
Depois há uma ausência de standards, pois não existe um “manual prático” setorial, levando as instituições a adaptarem, sem sucesso total, frameworks de risco de modelo ou de produto já existentes.
A Zango AI aponta ainda o que o custo da inação é a fraude e o risco sistémico. O impacto desta fragilidade já é visível no crime financeiro. Em 2025, as perdas globais com fraudes atingiram os 579 mil milhões de dólares, com 90% dos profissionais a reportarem um aumento de ataques baseados em IA.
“Se não recorrermos à IA para combater ameaças que são, elas próprias, baseadas em IA, as ferramentas tradicionais deixarão de ser suficientes,” adverte Archit Chamaria, CDAO do Novobanco.
Ritesh Singhania, CEO da Zango AI, reforça que o setor vive um “défice de governação” onde a segurança corre o risco de ser sacrificada em nome da rapidez. A IA pode amplificar erros e enviesamentos a uma velocidade sem precedentes, tornando os mecanismos tradicionais de controlo obsoletos.
O estudo defende uma colaboração urgente entre reguladores e instituições para criar normas comuns, apontando como exemplo o modelo do Joint Money Laundering Steering Group (JMLSG) no Reino Unido.
Enquanto os Estados Unidos lançaram, em fevereiro de 2026, um framework de gestão de risco de IA para serviços financeiros, a União Europeia e o Reino Unido ainda carecem de uma iniciativa comparável liderada pela indústria.
“Podemos trabalhar deliberadamente para construir um futuro de IA transparente (…) ou podemos chegar lá apenas após uma crise que poderíamos facilmente ter evitado,” conclui Lord Tim Clement-Jones.
O relatório contou com o acompanhamento académico da Universidade de Glasgow e da Oxford Martin School.