Os bancos europeus atravessam em 2026 uma das fases mais fortes da última década, depois de um ano de 2025 marcado por lucros recorde, forte valorização bolsista e recuperação da confiança dos investidores. Ainda assim, com o ciclo de taxas de juro a tornar-se mais incerto e o risco macroeconómico a subir, o mercado já não trata o setor como um bloco uniforme, segundo um comentário de João Lampreia, especialista de mercado na Freedom24.
O índice Euro Stoxx Banks subiu 76% em 2025, no que foi o seu melhor desempenho de sempre, impulsionado por taxas de juro ainda favoráveis, melhoria das margens financeiras, forte atividade de fusões e aquisições e reavaliação de bancos que durante anos negociaram com desconto face ao valor contabilístico.
Entre os casos mais fortes destacam-se o BNP Paribas, que fechou 2025 com lucro recorde de 12,2 mil milhões de euros, e o Santander, que anunciou 14,1 mil milhões de euros de lucro anual e manteve política agressiva de remuneração aos acionistas. O ING também voltou a apresentar receitas recorde pelo terceiro ano consecutivo, apoiado por maior diversificação.
A narrativa positiva do setor entrou numa fase mais exigente na primavera de 2026. O BCE interrompeu o ciclo de cortes nas taxas de juro, enquanto a inflação na zona euro voltou a acelerar, em parte devido ao aumento dos preços da energia. Este novo enquadramento sustenta margens e rentabilidade, mas aumenta o risco de desaceleração económica, deterioração da qualidade do crédito e maior custo do risco.
Seletividade ganha peso
Apesar da forte subida das ações, o setor continua relativamente barato, com vários grandes bancos a negociar abaixo de 8 a 9 vezes os lucros. A grande tese de valorização dos últimos anos — o regresso das taxas de juro e expansão das margens — pode já estar parcialmente descontada.
A nova fase favorece bancos com receitas mais diversificadas, capital sólido, disciplina de custos e política clara de dividendos e recompra de ações. Os bancos universais tendem a mostrar maior resiliência do que instituições excessivamente dependentes da margem financeira.
Os riscos para o setor incluem deterioração do crédito em contexto de crescimento mais fraco, pressão regulatória adicional sobre capital, redução da atividade de fusões e aquisições e ambiente geopolítico instável. Embora os bancos europeus continuem a ser uma das histórias mais fortes do mercado em 2026, já exigem uma abordagem mais seletiva por parte dos investidores.