A instituição financeira Ebury traçou três cenários para o que pode ser o futuro do Médio Oriente. O cenário mais provável, ao qual atribuiu uma chance de 45%, é a continuação da chamada ‘guerra de atrito’. Estas perspetivas foram apresentadas durante um webinar sobre os impactos do conflito do Médio Oriente, que se iniciou em fevereiro, envolvendo os Estados Unidos, Israel, e Irão, nos mercados financeiros, e que contou com a participação do economista chefe, Enrique Diaz-Alvarez, e do responsável pela estratégia de mercados, Matthew Ryan.
No cenário mais provável, elencado pela Ebury, descrito por Enrique Diaz-Alvarez, inclui-se uma estagnação nos acordos de paz no Médio Oriente, provocando o adiamento da abertura do Estreito de Ormuz. A concretizar-se esta hipótese, a financeira prevê que o preço do petróleo se situe entre os 100 dólares e os 130 dólares.
Um acordo de paz é um cenário ao qual a Ebury atribui uma probabilidade de 35% de se realizar. Aqui a previsão é que exista a abertura do Estreito de Ormuz no terceiro trimestre deste ano, levando a que os preços do petróleo se situem entre os 80 dólares e os 90 dólares.
O cenário de uma nova escalada no conflito no Médio Oriente tem uma chance de 20% na perspetiva da instituição financeira. Aqui o acordo de cessar-fogo colapsava, existia o retomar das operações militares, o Estreito de Ormuz ficaria intransitável, e o petróleo negociaria acima dos 150 dólares.
Relativamente às implicações económicas resultantes do conflito, Matthew Ryan salientou que a guerra possui implicações inflacionárias, tendo como vetores de transmissão o facto de 20% do petróleo passar pelo Estreito de Ormuz, a subida dos preços do gás natural na Europa e Ásia, o aumento dos custos de seguro nas mercadorias, e a subida dos custos da alimentação e dos fertilizantes. “Os multiplicadores de inflação secundários têm amplificado as pressões sobre o preço. A chave será se veremos uma segunda ronda de efeitos inflacionários, como por exemplo nos salários”, referiu Matthew Ryan.
No cenário base, a Ebury não vê necessariamente recessões e prevê uma queda limitada nos mercados laborais. Mas alerta que quanto mais tempo durar o impasse, maior é o risco para a atividade económica. Os exportadores de petróleo devem ver crescimentos fortes, e a Ásia é a região que está mais exposta aos efeitos negativos do conflito, devido à elevada dependência de importações que passam pelo Estreito de Ormuz. “O grande impacto para o crescimento global vem dos preços elevados do petróleo”, salientou Matthew Ryan.
Enrique Diaz-Alvarez salientou que o Irão “continua a ser o risco primário” para os mercados globais. Em jeito de ponto de situação, o economista-chefe da Ebury salientou que a guerra no Médio Oriente “não acabou” e que um impasse “parece provável”. A isto junta-se um Estreito de Ormuz que “continua intransitável” e um acordo de paz que tem tido um progresso lento devido a assuntos de relevo estarem por resolver.
Para Enrique Diaz-Alvarez, os mercados bolsistas estão a precificar “um cenário otimista” relativamente à situação que se vive no Médio Oriente. “O dólar reverte para níveis de pré-guerra. Os mercados norte-americanos estão em máximos, mesmo com ausência de acordo de paz. Vemos espaço para um recuo se as negociações pararem ou se existir um recomeço das hostilidades”, acrescentou o economista.
O economista-chefe da instituição financeira adiantou que os mercados energéticos “continuam a contar” com um prémio de risco ligado à guerra, a que se junta um Estreito de Ormuz que “está efetivamente fechado”, com menos de 10 navios a passarem face aos 130 que por aí transitavam antes do início da guerra. “A abertura [do Estreito de Ormuz] vai levar tempo. Existe o risco de mais ataques e prémios altos nos seguros. O tráfego pode retornar ao normal no terceiro trimestre, mas os níveis de pré-guerra são improváveis até 2027”, defendeu Enrique Diaz-Alvarez.
O economista salientou ainda que a perda de barris de petróleo provocada pelos condicionamentos no Estreito de Ormuz tem sido substituída por produção adicional vinda do oleoduto east-west, da Venezuela e dos Estados Unidos, contudo isso tem tido um efeito limitado nos preços do petróleo. “A perda tem de ser reposta por inventário e destruição de procura. Uma reabertura em junho [do Estreito de Ormuz] pode ser gerida pelo inventário [existente de petróleo], mas uma reabertura em setembro necessitaria de uma redução séria do consumo”, concluiu o economista.