Portugal pode mais do que duplicar o ritmo de crescimento da sua economia na próxima década e meia, atingindo um PIB real entre 520 e 550 mil milhões de dólares em 2040 — face aos atuais 285 mil milhões. A projeção foi apresentada por José Maria Pimenta da Gama, Senior Partner para a Ibéria da McKinsey & Company na conferência AECM Lisbon 2026, numa análise que combina diagnóstico estrutural com um roteiro de ambição para a economia portuguesa.

O ponto de partida é pouco animador. A consultora identifica três desafios que Portugal arrasta há décadas e que continuam a travar a convergência com os parceiros europeus.

O primeiro é a baixa produtividade: o PIB real per capita português situava-se em 27 mil dólares em 2024, contra 40 mil dólares na média da União Europeia — um diferencial de 1,5 vezes.

O segundo é a capitalização insuficiente das empresas: o rácio Capital/Ativos ronda os 30%, quando em países de referência como a República Checa ultrapassa os 40%.

O terceiro é a fraca atratividade para o investimento estrangeiro directo (IDE): Portugal captou IDE equivalente a 4,3% do PIB em 2024, menos de metade dos mais de 10% registados na Irlanda.

Apesar das fragilidades, a McKinsey projeta um cenário de ambição que implica crescimento anual de 4 a 5% — mais do dobro do ritmo atual de 1 a 2%. O caminho passa por três alavancas cumulativas.

A primeira assenta no reforço das indústrias estruturais existentes, que por si só poderiam acrescentar cerca de 60 mil milhões de dólares ao PIB com taxas de crescimento na ordem de 1 a 2% ao ano. A segunda envolve a expansão para novas áreas de atividade económica, com potencial adicional de 65 a 100 mil milhões, a crescer entre 1 e 3% ao ano. A terceira — e mais transformadora — é a aceleração proporcionada pela inteligência artificial generativa e pela automação, que poderia somar mais 125 mil milhões ao produto, com crescimento anual de 2 a 3%.

Um dos dados mais reveladores da apresentação diz respeito à concentração extrema da produtividade no tecido empresarial português. Numa amostra de cerca de 4.500 empresas em doze sectores, apenas 32 empresas — 0,7% do total — são responsáveis por 49% do crescimento positivo da produtividade nacional entre 2019 e 2023, empregando 22% dos trabalhadores.

No extremo oposto, 28 empresas “laggards” (0,6% do total) respondem por 55% da quebra de produtividade, ocupando apenas 6% do emprego. O padrão revela uma economia dual, onde um grupo muito restrito de líderes puxa o crescimento, enquanto uma cauda de empresas de baixa eficiência arrasta o desempenho agregado para baixo.

Energia como vantagem competitiva

A análise da McKinsey identifica ainda a transição energética como uma das principais oportunidades estruturais para Portugal. Num mapa comparativo com Espanha, Alemanha, Países Baixos, Reino Unido e Noruega, Portugal surge como líder em vários indicadores: custo da energia solar, custo do hidrogénio verde, capacidade de mineração de lítio, disponibilidade de CO₂ biogénico, tráfego portuário e capacidade de exportação por pipeline.

A conjugação de energia renovável barata, recursos minerais críticos e infraestrutura portuária coloca o país numa posição privilegiada para atrair indústrias intensivas em energia e liderar a descarbonização industrial europeia — desde que os desafios de produtividade e capitalização sejam endereçados com a mesma determinação.