Temos lido notícias sobre a probabilidade de se estarem a desenhar acordos que poderão, pelo menos, interromper os conflitos a que temos vindo a assistir na Ucrânia e no Golfo Pérsico.
Não querendo pôr em causa os esforços que de muitos lados se têm feito sentir para conseguir que esses dois conflitos terminem o mais rapidamente possível, o que será sempre um objectivo louvável, pessoalmente estou algo descrente da solidez das soluções e condições que, de acordo com as notícias provenientes de fontes credíveis, estão a ser usadas como base para esses acordos.
Parece-me que o argumento fundamental para a suspensão das hostilidades, num caso e noutro, é o facto de pelo menos alguns dos beligerantes estarem a acusar cansaço, sobretudo face aos resultados que têm sido alcançados, a que poderemos acrescentar outro factor que afecta as partes directamente envolvidas no conflito, que é o custo, em termos financeiros, mas também humanos e materiais, das operações militares.
Podemos também considerar as pressões externas exercidas por outros países, que se vêm afectados pelas consequências económicas de guerras em que não participam, têm o seu peso.
É inegável que estes factores constituem fortes incentivos negativos à continuação das hostilidades. Mas em nenhum dos casos houve uma vitória clara.
Na Ucrânia, é patente que a Rússia não conseguiu garantir os objectivos que tinha anunciado, que consistiam na anexação de todo o Donbass , na substituição do Governo, na neutralização do país, impedindo-o de aderir quer à NATO quer à União Europeia. Isto pelo menos, e numa primeira fase, porque as ambições de Vladimir Putin de recuperar para a Rússia a dimensão geográfica correspondente à União Soviética é, pelo menos, pouco disfarçada.
Conseguiu, até agora, a ocupação parcial do Donbass, com grande destruição da base económica e capacidade produtiva da região e a perda de centenas de milhares de cidadãos russos. Em troca, sofre a fragilização económica resultante das sanções decretadas pelos países ditos ocidentais, a deterioração das infraestruturas energéticas sobretudo da parte ocidental do país devido aos ataques dos drones ucranianos. E talvez mais relevante, incentivou a Ucrânia a desenvolver a sua capacidade militar a ponto de ter conseguido suster um exército várias vezes superior, e a Europa (apesar da destabilização da NATO criada pela administração dos EUA) a desenvolver o reforço da cooperação em termos de defesa e política externa.
No Golfo Pérsico, está por provar que a capacidade económica e militar do Irão tenha sido tão severamente afectada como inicialmente se anunciou, e não foi conseguida a tão desejada “alteração de regime”. Pelo contrário, os bombardeamentos levaram ao encerramento do estreito de Ormuz, ao reforço do pendor militar e policial do regime, e à realização de que uma vitória real só será possível com ocupação militar, com custos impensáveis – e politicamente insustentáveis.
Sem uma vitória clara, ou pelo menos a noção de que uma das partes é a vencedora, as causas reais destes conflitos, que são as ambições estratégicas que fundamentaram a decisão de iniciar as hostilidades, permanecerão lá, agravadas pela frustração resultante da falta de uma conclusão.
Na minha opinião, uma cessação de hostilidades neste quadro não será uma solução, nem um caminho para uma solução, será um interlúdio, um compasso de espera instável, até que qualquer perturbação menor reavive o conflito.