O Banco Português de Fomento (BPF) propôs ao Governo o lançamento de um novo Fundo de Fundos com uma dotação de 1,5 mil milhões de euros, apurou o Jornal Económico (JE) junto de fonte conhecedora do processo.

Este instrumento difere de tudo o que o banco promocional público fez até agora. O objetivo é apoiar processos de fusões e aquisições (M&A), bem como o desenvolvimento e a consolidação empresarial, prevendo abranger entre 600 e 800 empresas até ao final da década.

“Vai ser um fundo preparado para ser aplicado sem constrangimentos à partida e que operará em condições de mercado”, revela uma fonte próxima do processo.

Por se tratar de um “fundo de fundos”, o BPF não investirá diretamente nas empresas, mas sim em fundos de investimento – o Económico sabe que está previsto o investimento em fundos de private equity, venture capital e, eventualmente, fundos de crédito – que, por sua vez, financiarão startups, PME e grandes empresas. O BPF assumirá sempre uma participação minoritária, obrigando os fundos selecionados a captar o restante capital junto de investidores privados.

Uma das principais diferenças face a programas anteriores, como o Consolidar, é que não haverá necessidade de criar novos fundos neste programa. O Fundo de Fundos poderá investir em fundos já existentes. Além disso, não haverá o tradicional concurso público competitivo, onde as sociedades gestoras se apresentam a jogo para uma seleção baseada numa hierarquia de propostas.

“Vai ser um fundo em open call”, explica fonte do BPF, esclarecendo que o processo estará aberto em contínuo e as decisões de investimento serão tomadas ao longo do tempo.

Desta forma, o Banco de Fomento elimina dois dos principais obstáculos apontados pelas sociedades gestoras. Uma é eliminar o fundraising em simultâneo: As gestoras já não precisam de ir ao mercado angariar capital junto de investidores privados exatamente ao mesmo tempo. Outra é os fundos não estarem em competição desenfreada pelas empresas alvos de investimento, o que, em regra, pode distorcer as condições de mercado.

Neste modelo flexível, a angariação de capital e o investimento ocorrem ao longo do horizonte temporal dos fundos — cujo prazo de vida normal é de 10 anos, prorrogável por mais dois. A partir daí, haverá uma interação contínua entre o BPF e as sociedades gestoras para a apresentação de propostas que se enquadrem na política de investimento do banco.

O Fundo de Fundos será agnóstico em relação aos setores de atividade, focando-se exclusivamente na qualidade das candidaturas (como a rentabilidade e a competência da equipa de gestão). O BPF atuará como Limited Partner (LP), ou seja, como um investidor que fornece capital, mas não interfere na gestão diária nem nas decisões de investimento. A participação do BPF será limitada a um máximo de 49% nos fundos de private equity, venture capital ou de crédito. Esta é uma mudança significativa face aos moldes atuais, onde o banco público podia financiar até 70% dos fundos. Como o BPF gere fundos públicos e estatais/comunitários, a redução assegura o cumprimento estrito das regras europeias de Auxílios de Estado, garantindo que a intensidade do apoio não distorce a concorrência. Ainda assim, haverá flexibilidade para que as sociedades gestoras incluam investidores institucionais, como o Fundo Europeu de Investimento (FEI).

Por outro lado, e independentemente da nacionalidade do fundo de investimento, a totalidade do capital do BPF terá de ser injetada em empresas portuguesas.

Antes de desenhar este modelo, o BPF avançou com uma consulta pública aos stakeholders e associações do setor, soube o JE. Durante a apresentação de contas da instituição, Gonçalo Regalado, CEO do BPF, defendeu que o private equity e o venture capital são determinantes para transformar o perfil da economia portuguesa. Segundo o CEO, as empresas participadas pelo banco triplicaram, em média, o volume de negócios e as exportações, duplicaram a criação de emprego e registaram aumentos salariais médios de 50%. Por outro lado, “com os instrumentos de capital, a execução dos programas no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência registou uma forte aceleração, passando de 28% em 2024 para 98% em 2025”, referiu. O mercado aguarda com expectativa. Lurdes Gramaxo, Presidente da Investors Portugal, já disse publicamente que “tudo indica que haverá novidades para o segundo semestre de 2026”.

A preparação deste instrumento financeiro — desenhado para dar continuidade ao Fundo de Capitalização e Resiliência no pós-PRR — já tinha sido anunciada pelo Governo e pelo BPF em outubro de 2025. Na altura, o Ministro da Economia, Manuel Castro Almeida, destacou que o objetivo é “replicar as práticas de mercado das parcerias de capital com o grupo BEI/FEI, promovendo a capacitação do ecossistema nacional de capital de risco”.