A gestora de ativos Schroders acredita que, após décadas de taxas de juro ultra-baixas e de uma moeda persistentemente fraca, o cenário macroeconómico do Japão começa a mudar. A estrategista, Tina Fong, considera que o cenário de médio prazo para um iene mais forte está a consolidar-se, apesar da moeda japonesa, no curto prazo, continuar sob pressão.
Para Tina Fong, à medida que o Banco do Japão (BOJ) normaliza gradualmente a sua política monetária, as implicações vão muito para além da economia doméstica. “O abandono de uma política extremamente expansionista desafia a era do financiamento barato em ienes: os investidores terão menos incentivo para contrair empréstimos em ienes e investir no estrangeiro. Por sua vez, isto pode ter efeitos indiretos nas operações de carry trade globais e nas estratégias de diversificação entre classes de ativos”, alerta.
A estrategista considera que, no curto prazo, o iene continua sob pressão, sendo negociado perto dos 160 em relação ao dólar, apesar da intervenção anterior das autoridades. “Mas a perspectiva a médio prazo parece mais construtiva: uma combinação de forças estruturais e cíclicas está a consolidar-se, apontando para uma moeda mais forte ao longo do tempo”, assinala.
Recorde-se que o iene, em junho, atingiu um mínimo de 40 anos.
“À medida que os rendimentos japoneses sobem e os diferenciais de taxas diminuem, a atractividade de investir no estrangeiro começa a desaparecer. Os custos de cobertura aumentam, os retornos ajustados pela variação cambial dos activos estrangeiros descem e parte do capital pode começar a ser repatriado. Uma desaceleração nestes fluxos de saída deverá, em última análise, fornecer suporte estrutural ao iene”, descreve Tina Fong.
Contudo, diz a estrategista, uma diferença de taxas mais baixa não se traduziu num iene mais forte. “O alívio fiscal e a crise no Médio Oriente, entre outros fatores, contribuíram para manter a moeda sob pressão. Dito isto, à medida que as taxas reais no Japão se afastam ainda mais do território profundamente negativo, o argumento fundamental para a valorização do iene continua a fortalecer-se”, acrescenta.
Tina Fong assinala que, após a vitória esmagadora da primeira-ministra Sanae Takaichi nas eleições do ano passado, a política fiscal tornou-se mais frouxa. A estrategista lembra que o governo japonês anunciou um orçamento recorde para o ano fiscal de 2026, com as despesas a aumentarem cerca de 6%, para mais de 122,3 biliões de ienes, o maior da história do Japão. “Isto junta-se ao pacote de estímulo suplementar de 18,3 biliões de ienes aprovado no final de 2025”, acrescenta.
“É importante realçar que uma política orçamental mais frouxa está a enfraquecer a relação habitual entre os diferenciais de taxas e a moeda. Normalmente, taxas mais elevadas apoiariam o iene, atraindo capital e reduzindo os incentivos para investir no estrangeiro. Mas o aumento das despesas do governo está a alterar esta dinâmica. Isto elevou os rendimentos a longo prazo e inclinou a curva, particularmente na extremidade ultralonga, além de aumentar os prémios de risco fiscal”, defende a estrategista.
“Como resultado, os rendimentos mais elevados não estão a ser impulsionados puramente por fundamentos mais fortes ou por uma política monetária mais restritiva. Em vez disso, reflectem em parte as preocupações com os empréstimos governamentais e a sustentabilidade da dívida. Isto torna estes rendimentos mais elevados menos favoráveis à moeda e pode até sustentar as saídas de capital, em vez de as reverter. O iene tornou-se menos sensível à redução do diferencial de juros do que nos ciclos anteriores”, refere Tina Fong.
A estrategista diz que, olhando para o futuro, o recente orçamento suplementar de três biliões de ienes para suportar os custos energéticos das famílias, juntamente com um corte proposto no imposto sobre o consumo alimentar de 8%, equivalente a cerca de cinco biliões de ienes anuais, elevaria o total de medidas para aproximadamente 8 biliões de ienes. “Isto está muito abaixo do pacote de estímulo de 18,3 biliões de ienes entregue no final de 2025, apontando para um aperto fiscal líquido em comparação com o ano passado. É importante realçar que as autoridades têm estado preocupadas em não financiar novas despesas com o aumento da emissão de dívida. Espera-se que o orçamento suplementar seja financiado por receitas fiscais e não fiscais mais robustas”, assinala.
Para Tina Fong, o principal risco positivo é um corte mais amplo no imposto sobre o consumo, uma medida mais dispendiosa que acrescentaria 15 biliões de ienes ou mais ao défice, o que poderia ampliá-lo significativamente e pressionar o iene. “Mas este não é o nosso cenário base”, diz a estrategista da Schroders. “Se as preocupações fiscais diminuírem, os diferenciais das taxas de juro deverão reafirmar-se como o principal factor determinante da moeda, o que seria favorável ao iene”, acrescenta.
“Ao mesmo tempo, a dívida líquida em relação ao PIB do Japão tem vindo a diminuir ligeiramente, com o crescimento nominal a superar os custos de empréstimo. Isto está a reduzir gradualmente o prémio de risco orçamental, reforçando a perspectiva de um iene mais forte a médio prazo, embora este factor favorável possa diminuir à medida que as taxas de juro subam ainda mais”, assinala.
Tina Fong diz que, embora a crise no Médio Oriente e o aumento dos custos de energia tenham pesado sobre os termos de troca do Japão recentemente, a tendência geral tem melhorado nos últimos anos. “Um factor-chave tem sido o aumento dos preços das exportações, impulsionado por uma mudança para sectores de maior valor acrescentado, como os semicondutores, onde as empresas têm um maior poder de fixação de preços. Isto mais do que compensou o aumento dos custos de importação. Ao mesmo tempo, a melhoria da eficiência energética e a retoma gradual da capacidade nuclear reduziram a dependência do combustível importado”, diz.
Iene pode estar subvalorizado entre 15% a 20%
“Um modelo BEER (taxa de câmbio de equilíbrio comportamental), que incorpora a produtividade relativa entre os Estados Unidos e o Japão, os termos de troca e a abertura comercial, sugere que o iene está subvalorizado em 15% a 20%. Assim, os fundamentos apontam para uma moeda mais forte”, defende Tina Fong.
A estrategista refere que o Japão apresenta um excedente persistente na balança corrente, mas este excedente é menos favorável à moeda do que aparenta. “Grande parte dele reflecte rendimentos primários, rendimentos de activos no estrangeiro, em vez de fluxos reais de volta para o iene. Quase metade consiste em lucros reinvestidos retidos por subsidiárias estrangeiras que nunca regressam ao Japão. Embora registados nas estatísticas, estes fluxos têm pouco impacto direto na moeda”, diz Tina Fong.
“Em contrapartida, a balança financeira apresenta saídas de capital persistentes. Os investidores institucionais continuam a alocar recursos no estrangeiro, o investimento direto estrangeiro corporativo continua elevado e o iene ainda é amplamente utilizado como moeda de financiamento. Estes fluxos envolvem a venda ativa de ienes, criando uma pressão persistente de baixa sobre a moeda”, explica a estrategista da Schroders.
Para que esta dinâmica se altere, os rendimentos reais precisam de entrar em terreno positivo, defende a estrategista. “Isto reduziria o incentivo para contrair empréstimos em ienes e investir no estrangeiro. Com a expectativa de que o Banco do Japão continue a aumentar as taxas de juro, as nossas previsões sugerem que as taxas reais deverão sair do terreno negativo no final do próximo ano. Mas o processo será provavelmente gradual, com os decisores políticos cautelosos quanto aos riscos para a estabilidade financeira”, acrescenta.
“Ao mesmo tempo, as taxas de juro dos Estados Unidos mostram poucos sinais de descida; na verdade, os mercados estão agora a precificar a próxima ação da Reserva Federal (Fed) como um aumento. Como resultado, a compressão no diferencial de taxas será provavelmente modesta e lenta”, defende.
“Do lado dos investidores, o aumento dos rendimentos dos títulos do governo japonês (JGBs) está a começar a tornar os títulos domésticos uma alternativa mais competitiva para as seguradoras de vida e os fundos de pensões, principalmente porque os custos de cobertura cambial corroem a vantagem de rendimento dos títulos estrangeiros”, considera Tina Fong.
A estrategista sublinha que os rácios de cobertura cambial entre as seguradoras de vida são baixos, aumentando o risco de que um iene mais forte desencadeie uma onda de cobertura, o que poderá amplificar o movimento.
“O investimento directo estrangeiro empresarial é o canal mais difícil de inverter, reflectindo forças estruturais mais profundas, como o envelhecimento da população e a tendência de longa data para produzir mais perto dos mercados consumidores. Os esforços governamentais de deslocalização da produção podem ajudar marginalmente, mas uma reversão significativa exigiria provavelmente um período prolongado de subvalorização do iene para restaurar a competitividade interna. Dito isto, mesmo uma moderação nestes fluxos de saída seria positiva para o iene”, explica.
“O cenário de médio prazo para um iene mais forte está a consolidar-se e isso é importante para os investidores. Os diferenciais das taxas de juro já diminuíram significativamente, os termos de troca estão a melhorar e a moeda ainda parece subvalorizada. Os principais entraves, como a flexibilização orçamental e os persistentes fluxos de saída de capitais, também parecem estar a moderar-se”, conclui Tina Fong.