O mercado global de serviços de satélites em Órbita Terrestre Baixa (LEO) deverá registar uma expansão de sete a oito vezes na atual década, impulsionado pelas exigências de conectividade da Inteligência Artificial (IA) e pela crescente fragmentação geopolítica, segundo um relatório da Allianz Research divulgado recentemente.
De acordo com o estudo macroeconómico, este segmento de serviços deverá saltar de uma avaliação de 16 mil milhões de dólares em 2025 para cerca de 120 mil milhões de dólares já em 2030, integrando-se numa economia espacial mais ampla que deverá triplicar e superar os 1,8 biliões de dólares até 2035.
"O 5G continua limitado pela cobertura. Cerca de 40% da superfície terrestre global, incluindo grande parte dos oceanos, permanece sem cobertura 5G fiável, o que reforça o papel dos satélites de baixa órbita terrestre", destaca o relatório.
O documento sublinha que a nova vaga da economia da IA — que abrange desde veículos autónomos e robótica industrial até logística de drones e gestão inteligente de redes elétricas — partilha uma dependência crítica de conectividade contínua, de alta largura de banda e de baixa latência que as redes terrestres atuais são incapazes de fornecer de forma fiável.
Esta forte atratividade comercial é potenciada por uma dimensão geopolítica cada vez mais complexa. O relatório da Allianz Research exemplifica a vulnerabilidade das infraestruturas físicas tradicionais com os ataques de drones perpetrados no início de 2026 contra três centros de dados associados à Amazon na região do Golfo, um evento que congelou decisões de investimento na região e demonstrou que as constelações distribuídas de satélites LEO, por não possuírem um ponto único de falha, se tornaram um requisito de resiliência para empresas e governos em territórios instáveis.
Investimento recorde concentrado nos EUA e China
Em termos financeiros, o investimento privado em tecnologia espacial atingiu o recorde histórico de 12,4 mil milhões de dólares em 2025 (uma subida homóloga de 48%), contrariando o arrefecimento geral do capital de risco noutros setores tecnológicos. Esse fluxo monetário revela uma forte concentração geográfica nos Estados Unidos, que capturaram cerca de 60% do total global (7,3 mil milhões de dólares), impulsionados pela consolidação comercial e pelo recente IPO da divisão Starlink da SpaceX, avaliada em 1,75 biliões de dólares e atualmente com cerca de 7.000 satélites em órbita.
"A entrada em bolsa associada à SpaceX/Starlink é um marco para o setor espacial. O relatório interpreta o IPO como a confirmação pública de uma crença já existente entre investidores privados: o espaço passou a ser visto como um pilar de investimento estrutural", refere o estudo.
O principal polo concorrencial de curto prazo no bloco ocidental surge com o Projeto Kuiper da Amazon, um investimento superior a 10 mil milhões de dólares focado no segmento empresarial e governamental, cujos primeiros lançamentos comerciais arrancam em 2026.
No entanto, os analistas alertam que as ambições espaciais da China são sistematicamente subestimadas pelo mercado ocidental. Financiado pelo Estado e contornando as restrições de capital que afetam as empresas privadas, o programa chinês planeia colocar cerca de 27.000 satélites em órbita nesta década através de operadoras públicas como a China SatNet e a SSST, estimando-se que Pequim controle perto de 40% da frota efetiva de satélites LEO até 2030.
O relatório indica que a China se antecipou ao posicionar os seus satélites LEO como a camada de conectividade digital da Nova Rota da Seda (Belt and Road Initiative), oferecendo preços abaixo do mercado e equipamentos subsidiados para converter essa dependência tecnológica em influência geopolítica a longo prazo.
Europa não dispõe de capacidade de capital ou escala para competir
Perante este cenário de crescente bipolarização entre Washington e Pequim, o relatório aponta que a Europa enfrenta limitações severas de escala e de capital, uma vez que a capacidade combinada da operadora Eutelsat OneWeb e da futura constelação soberana institucional europeia IRIS² (que prevê apenas 280 satélites até 2030) é incapaz de rivalizar diretamente com os planos sino-americanos que ultrapassam os 100 mil satélites.
Neste cenário, os analistas defendem que a melhor resposta da política industrial europeia passa por dominar um "ponto de estrangulamento" na cadeia de valor, aplicando à indústria aeroespacial o modelo que a empresa ASML detém nos semicondutores. O caminho delineado foca-se em consolidar a Arianespace como uma fornecedora de lançamentos indispensável e global — estatuto já validado pela escolha do foguetão Ariane 6 por parte da Amazon para o projeto Kuiper — enquanto se acelera a transição para modelos reutilizáveis na década de 2030 através de iniciativas como a subsidiária MaiaSpace.