O brasileiro Mat Velloso, 49, que já passou por cargos estratégicos de inteligência artificial em Microsoft, Google e Meta, diz que o Brasil está perdido na corrida pela nova economia que deve surgir.

“Faltam propostas concretas. Sabe qual é o perigo? Que nos próximos cinco anos vai haver países que vão acelerar cem anos. Se o Brasil não acelera junto, a voltamos para 1500”, afirmou Velloso em entrevista à Folha durante um evento em Sunnyvale, cidade onde fica uma das sedes do Google na Califórnia.

No ano passado, o executivo deixou uma vice-presidência no Google, onde comandava o desenvolvimento de produtos de IA, para ir ao superlaboratório de IA que Mark Zuckerberg montou com uma série de propostas bilionárias. No início deste ano, abriu mão de um contrato milionário pelo plano de orientar negócios brasileiros no uso de IA em troca de uma participação na empresa.

Para o brasileiro, o país deveria investir em geração de eletricidade para atrair investimentos. “Assim, viriam processamento de dados, treinamento de pessoal e dados, que são o novo petróleo para a criação de modelos como o ChatGPT.” A China, diz, está à frente de todos por ter um plano de décadas.

Por que decidiu deixar a Meta?

Foi uma decisão difícil, porque tive que abrir mão de muito dinheiro. Conversei com a minha esposa e pedi permissão para tomar a decisão mais louca que já tomei na vida. A Meta tratou-me muito bem, com muito respeito. Mas eu senti que não era o meu lugar. É um momento em que preciso trazer mais valor para a sociedade, principalmente para o Brasil.

As empresas do Brasil têm-no procurado?

Eu achei que eu ia ter tempo livre e eu nunca tive tanta reunião na minha vida. Há de startups a grandes empresas —bancos, companhias na área de educação, segurança, entre outras. Eu ofereço um pouco do meu tempo, as empresas oferecem um pedaço em ações.

O Brasil discute hoje um incentivo para data centers. Isso funcionaria?

Não acho errado, mas daria errado sem capacidade energética e planeamento. Quando se vê a capacidade de geração de eletricidade chinesa, o gráfico é de assustar. Uma empresa que tem data centers no Brasil que me procurou disse que está quase a desistir de trazer investimentos em IA para o país.

Isso porque é muito caro e não há capacidade energética. Assim, os fornecedores nacionais não conseguem competir em custo com os grandes fornecedores de cloud internacionais.

O que a China está a fazer? Está a produzir capacidade energética como se não houvesse amanhã. Porque se quem tem energia elétrica, tem inteligência artificial.

Em que áreas vale investir em inteligência artificial?

O setor jurídico, por exemplo, carece desesperadamente de automatizar, acelerar processo. Por isso, existem startups dando super certo nessa área. Existem startups dando super certo no setor financeiro e em segurança. Há tanta oportunidade de criar valor sem gerar desemprego.