Uma economia branda, de baixo valor acrescentado, onde os sectores mais robustos estão capturados por capital estrangeiro e a falta de uma política económica estruturada dificulta inverter esta tendência. Assim é vista a realidade portuguesa atualmente e, para a alterar, Paulo Morgado e David Pereira de Castro propõem-se a avançar com diagnósticos mais completos e caminhos para a dinamizar. É esta a premissa do livro ‘Valor Acrescentado Brando’, apresentado esta quinta-feira em Lisboa.
Os autores estiveram à conversa com o JE a propósito do livro, que “propõe um novo conceito para ler a economia portuguesa: uma parte demasiado grande do valor criado no país é brando, pouco defensável, pouco escalável e pouco internacionalizável”, como se lê na nota de imprensa a informar da sua publicação. A produtividade é um dos calcanhares de Aquiles recorrentes nacionais, mas, para a estimular, o olhar deve ser mais abrangente e aprofundado, defendem.
“Entendemos que a produtividade não é exclusivamente uma questão laboral e, embora tenha sido debatida maioritariamente nessa perspetiva nos últimos anos em Portugal, é também uma produtividade do capital e da sua alocação”, começa por lembrar o economista e professor universitário David Pereira de Castro.
Este é um dos exemplos de um diagnóstico “ao qual faltam peças” ou mesmo puramente errado que, completa o gestor e sócio da Antas da Cunha ECIJA, Paulo Morgado, abundam no panorama nacional. Isso leva a debates mal fundamentados sobre a economia nacional, como, por exemplo, a satisfação com os crescimentos nos últimos anos acima da média europeia.
“Havia uma chamada elite económico-empresarial que batia palmas aos crescimentos acima da média europeia”, lembra. “Mas, afinal, temos mais população – ou seja, o denominador do PIB per capita é superior ao que tínhamos pensado”, pelo que a realidade não é tão favorável como os números sugeriam.
O mito da retenção de talento
Por outro lado, há sectores que, de facto, são “altamente exportáveis, de alto valor acrescentado”, como os autores pretendem ver na economia portuguesa, mas que “são maioritariamente detidos por entidades de capital estrangeiro”, ressalva David Pereira de Castro. Isto significa que “o valor que é gerado em Portugal pelos principais sectores exportadores em Portugal é depois também ele exportado para o estrangeiro”, deixando o país numa posição periclitante na cadeia de valor e “com margens muito baixas”.
“Isto cria um problema crónico de capacidade de distribuição de riqueza” e retira capacidade às empresas de efetivamente pagarem salários mais altos que permitam aos jovens permanecer no país, ao invés de emigrarem à procura de empregos mais estáveis e mais bem remunerados, continua o professor universitário.
“Temos imensas pessoas que Portugal não perdeu para nenhum país, que estão em Portugal a trabalhar, e que muito do valor acrescentado do trabalho que fazem é capturado por estrangeiros. E normalmente ninguém fala nisto”, completa Paulo Morgado.
A chamada ‘geração mais qualificada de sempre’ tem abandonado o país a um ritmo assinalável, algo recorrentemente apontado como uma debilidade, mas “há uma mitologia de que se essas pessoas estivessem em Portugal seriam super bem aproveitadas”. Olhando para o Mundial de futebol e a Seleção Nacional, Paulo Morgado tem as suas dúvidas.
“Veja-se esta ‘geração de ouro’: quantos é que jogam em Portugal? Uma percentagem muito baixa. E conseguimos aproveitar essa geração de ouro a favor de Portugal?”, relembra.
Urge uma política económica
Há, contudo, exceções – mas até aí se vê a falta de rumo, sobretudo em termos de política económica. Há fileiras competitivas, detidas por nacionais e com escala e quota suficientes para se afirmarem no exterior, mas estas acabam frequentemente atiradas para segundo plano em detrimento de sectores de baixo valor acrescentado ou buzzwords com pouca correspondência à realidade.
Um exemplo, concretiza David Pereira de Castro, é a pasta de papel, onde atua “a segunda maior empresa exportadora do país, equivalente a 1% do PIB”. Ao mesmo tempo, o ramo das start-ups, composto por cerca de 5.900 empresas, pesa o mesmo na economia nacional. Contudo, “estamos diariamente a discutir as start-ups portuguesas”, enquanto a pasta de papel cai no esquecimento.
Este é um dos aspetos mais notórios da falta de uma política económica e industrial no país, argumenta. E, com o país cada vez mais virado para um serviço exportável, mas de baixo valor acrescentado e salários próximos do mínimo como o turismo, a tendência não se afigura positiva.
“O turismo pode continuar a seguir o seu caminho de especialização. Agora, o que não podemos é aceitar é termos uma Secretaria de Estado de Economia, uma Secretaria de Estado do Turismo, e não termos uma para a indústria, não termos STEM [ciências, tecnologia, engenharia e matemática], não termos um foco na competitividade ou no crescimento das PME”, critica.
Ainda assim, há aspetos positivos. Lembra Paulo Morgado que, sempre que o país foi chamado a reformar profundamente, cumpriu – e com distinção. No entanto, estas chamadas à reforma foram frequentemente impostas pelo exterior, quer no caso do terramoto de 1755, quer, mais recentemente, no caso do resgate financeiro pela troika. Portanto, o objetivo é avançar com as reformas por iniciativa própria, sem a necessidade de imposições.
“Que nos consigamos pôr em situações de ‘ter fome’ – de fazer mais – sem ser preciso vir a natureza ou outros países imporem determinado tipo de condutas a Portugal”, projeta Paulo Morgado. “Porque Portugal, confrontado com esse tipo de condutas, faz as contas extremamente bem”.
O livro ‘Valor Acrescentado Brando’ é apresentado esta quinta-feira, às 18h00, no Cinema São Jorge, em Lisboa, numa sessão conduzida por António Palma Ramalho, antigo CEO do Novo Banco.