Durante muitos anos, quando se falava de inovação em Portugal, a discussão centrava-se sobretudo na investigação, nas patentes ou nos avanços científicos produzidos nas universidades e centros de conhecimento. Tudo isso é fundamental. Mas existe uma pergunta mais importante: quantas dessas ideias chegam efetivamente às fábricas, transformam processos produtivos, criam novos produtos e aumentam a competitividade das empresas?
É precisamente nesta ligação entre conhecimento e economia real que reside um dos maiores desafios da indústria do nosso país.
Portugal enfrenta uma oportunidade histórica. A transição digital e a transição climática vão mobilizar milhares de milhões de euros em investimento industrial nos próximos anos. A questão é simples: seremos apenas compradores de tecnologia desenvolvida noutros países ou conseguiremos criar, produzir e exportar uma parte significativa dessas soluções?
A resposta passa, em grande medida, pela capacidade de construir ecossistemas de inovação capazes de aproximar empresas, centros tecnológicos, universidades e utilizadores finais em torno de objetivos comuns.
É esse o caminho seguido pela Agenda Mobilizadora PRODUTECH R3.
Liderada pela Colep Packaging e envolvendo mais de uma centena de parceiros, entre empresas fornecedoras de tecnologias de produção, empresas industriais utilizadoras e entidades do sistema científico e tecnológico, a iniciativa representa uma das mais ambiciosas apostas nacionais na transformação industrial e tecnológica.
Mas o seu verdadeiro valor não está apenas na dimensão do investimento ou na dimensão do consórcio. O que distingue a PRODUTECH R3 é a sua capacidade para transformar conhecimento em aplicações concretas.
Quando uma empresa consegue prever uma avaria antes de ela acontecer, reduzindo paragens inesperadas de produção, quando a inteligência artificial permite otimizar a manutenção de equipamentos industriais, quando a digitalização prolonga o ciclo de vida de máquinas de elevado valor, quando novas soluções de eficiência energética reduzem custos e emissões, quando robôs colaborativos aumentam a flexibilidade produtiva ou quando materiais avançados permitem desenvolver produtos mais sustentáveis e competitivos, estamos perante muito mais do que inovação tecnológica.
Estamos perante ganhos reais de produtividade. E a produtividade continua a ser uma das palavras mais importantes do debate económico português.
Sem ganhos consistentes de produtividade não há crescimento sustentável dos salários, não há maior competitividade das empresas, não há reforço das exportações e não há convergência duradoura com as economias mais desenvolvidas da Europa.
Por isso, iniciativas como o PRODUTECH R3 merecem ser analisadas para além dos seus resultados imediatos.
Os 85 novos produtos e serviços inovadores previstos, os mais de 50 pilotos industriais e os programas de capacitação, internacionalização e qualificação são importantes. Mas talvez o legado mais relevante seja outro: a criação de um verdadeiro ecossistema colaborativo de inovação industrial.
Durante demasiado tempo, Portugal falou da necessidade de aproximar a ciência das empresas. A PRODUTECH R3 demonstra que essa aproximação não só é possível como gera resultados concretos quando existe uma visão partilhada, objetivos comuns e uma orientação clara para a criação de valor económico.
Num contexto internacional marcado pela necessidade de reforçar a autonomia tecnológica europeia e pela crescente competição global, esta capacidade de desenvolver tecnologias de produção em Portugal assume uma importância estratégica acrescida.
Porque o futuro da indústria portuguesa não dependerá apenas daquilo que produzimos, mas também das tecnologias que somos capazes de desenvolver para produzir melhor, torna-se cada vez mais necessário promover agendas mobilizadoras como a PRODUTECH R3. Mais do que projetos financiados, estas agendas representam um investimento na capacidade do país para criar conhecimento, transformá-lo em inovação e convertê-lo em prosperidade.
Ao mobilizarem organizações, competências e investimentos em torno de objetivos comuns, estas agendas fortalecem verdadeiros ecossistemas de inovação. Reúnem massa crítica, promovem a colaboração entre os diferentes atores e geram impactos concretos nas empresas e nas cadeias de valor.
Num momento em que a reconstrução e a consolidação das cadeias de valor, a autonomia estratégica e a segurança económica da Europa assumem uma importância crescente, a mobilização destas capacidades — apoiadas por instrumentos de política pública adequados — é essencial para lançar as bases da competitividade futura da indústria portuguesa.
No final, a verdadeira medida do sucesso não estará apenas nos relatórios ou nos indicadores de execução. Estará nas fábricas mais competitivas, nos empregos mais qualificados, nas exportações de maior valor acrescentado e numa economia capaz de transformar talento e conhecimento em crescimento sustentável. É aí que a inovação deixa de ser uma promessa e passa a ser desenvolvimento.
A Agenda Mobilizadora PRODUTECH R3 demonstra também uma outra realidade: ecossistemas desta natureza não surgem por acaso. O financiamento público funcionou como o elemento agregador que permitiu reunir competências, criar confiança entre parceiros e acelerar investimentos que dificilmente teriam acontecido à mesma escala. Agora, o desafio é dar continuidade a este esforço, transformando uma iniciativa de sucesso numa capacidade estrutural.
O futuro da indústria portuguesa constrói-se em rede.