O economista António Nogueira Leite criticou duramente a proposta de criação de um fundo soberano pelo Governo português, alertando que, se for ambicioso, pode gerar um “sistema de compadrio ainda pior do que temos”. Em entrevista ao Jornal Económico, Nogueira Leite afirmou que, embora o Executivo tenha sinalizado que o fundo se destina a gerir participações existentes — como a da Galp —, o risco de alargamento futuro é real.
“Parece-me que têm uma ambição muito mais modesta do que inicialmente parecia. Mas eu não tenho provas. O que me têm dito é que se trata de gerir as participações que o Estado tem”, referiu, citando a posição do Estado na Galp como exemplo. No entanto, sublinhou que “se o instrumento existir, é muito difícil que, estatutariamente, se imponha que eu não possa investir em mais nenhuma empresa”.
Para Nogueira Leite, um fundo com ambições maiores representaria um retrocesso na filosofia de privatizações seguida desde 1989 e agravaria a dependência do empresariado em relação ao Estado. “Criaria um sistema de compadrio ainda pior do que já temos. Hoje, não há praticamente vozes empresariais. As pessoas deixaram de falar”, criticou.
Questionado sobre alternativas, defendeu que o dinheiro seria melhor aplicado na redução de impostos, reformas estruturais ou no abate da dívida pública. “Quando o Governo começa a escolher vencedores… já vimos o que aconteceu aos campeões nacionais da década de 2000”, concluiu, acrescentando que as dificuldades orçamentais devem limitar futuras expansões do fundo.