Apesar do endurecimento das políticas comerciais dos Estados Unidos em relação à China desde 2018 — com a finalidade de reduzir o déficit comercial do gigante asiático e levar de volta as fábricas aos Estados Unidos e enfraquecer a capacidade de exportação de Pequim, parece que não ter surtido o efeito desejado. Segundo dados recentes o impacto global destas tarifas está longe de ser linear. O estudo “In What Ways Has U.S Trade With China Changed? de Hunter L. Clark e Gregory Simitian divulgado pelo Federal Reserve Bank of New York Liberty Street Economics revela uma realidade mais complexa: “em vez de travar o comércio, as tarifas estão a redesenhar os fluxos globais, com o Sudeste Asiático a assumir um papel central como intermediário”, revela a análise.
Um défice que pouco mudou
Segundo os autores, “a política comercial dos EUA sofreu enormes alterações, mas com surpreendentemente pouco efeito no saldo global”. O défice comercial norte-americano manteve-se praticamente inalterado, fixando-se em cerca de 1,2 biliões de dólares em 2025, enquanto “o superávit comercial da China com o resto do mundo aumentou de um trilhão para 1,2 trilhão de dólares, um recorde histórico. Paradoxalmente, o período de maior pressão comercial dos EUA coincidiu com o melhor desempenho das exportações chinesas de todos os tempos”, aponta o estudo.
No entanto, por detrás destes números agregados, escondem-se mudanças profundas nas relações bilaterais. O défice dos EUA com a China diminuiu, mas aumentou significativamente com países da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), em particular com o Vietname.
O desvio das rotas comerciais
O estudo aponta para um fenómeno claro: “o comércio da China com os Estados Unidos foi cada vez mais redirecionado — de uma forma ou de outra — através da ASEAN” — Vietname, Tailândia, Malásia e Indonésia. Ou seja, produtos que antes eram exportados diretamente da China para os EUA passam agora por países terceiros antes de chegar ao mercado americano. Ou seja, como refere o site eleconomista.es o que “mudou foi a rota e a rotulagem”. Este desvio permite reduzir o impacto das tarifas, uma vez que muitos produtos provenientes do Sudeste Asiático enfrentam taxas mais baixas ou, em alguns casos, nem sequer estão sujeitos a direitos aduaneiros.
Segundo o Eleconomista.es, o Vietname, Tailândia, Malásia e a Indonésia tornaram-se “componentes essenciais de um sistema no qual a China fornece bens e componentes intermediários, enquanto a montagem final (os retoques necessários para justificar a mudança da etiqueta “Made in China”) ocorre fora de suas fronteiras. Quando esses produtos chegam aos Estados Unidos, eles não levam uma etiqueta chinesa, mas sim uma vietnamita ou tailandesa, evitando assim uma parcela significativa das tarifas impostas especificamente a Pequim.
Estratégias empresariais e cadeias de valor
As empresas tecnológicas desempenham um papel crucial nesta reconfiguração. Gigantes como a Lenovo, Apple, Dell ou HP têm deslocado partes da sua produção para países como o Vietname ou a Índia. Como refere o estudo ” Por exemplo, a Lenovo transferiu a produção para fora da China, incluindo para a Índia e países da ASEAN. Da mesma forma, a Apple expandiu suas operações no Vietname para a produção do iPad, enquanto a Dell e a HP começaram a realocar parte da produção de notebooks para o Sudeste Asiático já em 2023. Essas mudanças apontam para um redirecionamento da montagem final da China para os países da ASEAN, reduzindo a exposição direta dos EUA às exportações chinesas. Além disso, apenas cerca de 1% dos produtos classificados no código HS 84 estão sujeitos a tarifas de importação quando provenientes da ASEAN, em comparação com quase 90% para a China.”
Contudo, isto não significa uma rutura total com a China. Pelo contrário, como sublinham Clark e Simitian, “este redirecionamento não exige uma revisão completa das cadeias de abastecimento”. A montagem final pode ocorrer noutros países, mas muitos componentes continuam a ser produzidos na China.
O papel dos componentes chineses
Os dados mostram que os inputs chineses — como processadores, memórias e circuitos integrados — continuam a alimentar a produção na ASEAN. Estes componentes representaram cerca de 47 mil milhões de dólares do aumento do excedente comercial da China com a região.
Assim, mesmo quando os produtos finais deixam de ser oficialmente “made in China”, a influência chinesa permanece profundamente enraizada na cadeia de produção.
Tecnologia e inteligência artificial impulsionam mudanças
Outro fator decisivo é o crescimento explosivo da procura por infraestruturas digitais. O investimento em hardware para inteligência artificial poderá atingir 550 mil milhões de dólares em 2026, impulsionando a procura por servidores, redes e centros de dados.
Grande parte deste equipamento chega aos EUA através da ASEAN, reforçando o papel da região como elo estratégico nas cadeias globais.
Os autores alertam ainda para discrepâncias estatísticas nos dados comerciais, que podem refletir práticas de subdeclaração ou estratégias de minimização de tarifas. “Parte das alterações parece ser ‘artificial’”, referem, sugerindo que os números oficiais nem sempre captam totalmente a realidade.
Um novo mapa do comércio global
No final, a conclusão é clara: as tarifas não eliminaram a dependência dos EUA em relação à produção chinesa — apenas a tornaram menos direta e mais difusa.
Como resumem Clark e Simitian, “a mudança no comércio dos EUA afastando-se da China é real, mas o quadro completo é mais complicado”. A ASEAN emerge como peça-chave num sistema cada vez mais fragmentado, onde as cadeias de valor se adaptam rapidamente às pressões políticas e económicas.
Num mundo de tensões geopolíticas e inovação tecnológica acelerada, o comércio global não está a diminuir — está simplesmente a reinventar-se.