Senhor de uma carreira fulgurante, Dominic Perrault, arquiteto e urbanista francês, recebeu a sua primeira encomenda aos 28 anos, uma fábrica em Châteaudun. Aos 36 traçou um complexo habitacional e a escola de engenharia de Marne La Vallée, que hoje acolhe mais de 2000 alunos. Aos 40 venceu o concurso para a Biblioteca Nacional da França, esse colosso que equilibra introversão e extroversão: um terraço aberto e a sensação de conforto de um claustro. Quatro torres, um espaço. Desde então, os projetos sucedem-se nas mais diversas geografias. O velódromo em Berlim, o Centro Universitário da Universidade Ewha em Seul, a ampliação do Tribunal de Justiça da União Europeia no Luxemburgo ou a Aldeia Olímpica dos JO de Paris 2024, entre muitos outros. Esta semana, na Porto Academy, uma iniciativa que contou com o apoio do Institut Français du Portugal, falou sobre o papel da arquitetura nas questões ambientais e no futuro das cidades.

Os espaços urbanos tanto são uma fonte de problemas ambientais, como territórios de oportunidade e inovação. Que papel deve a arquitetura aqui desempenhar?
É uma boa maneira de colocar a questão: a arquitetura tem de fazer parte da solução. Não pode responder sozinha a todos os problemas ambientais, porque o seu campo de ação abrange apenas parte da cidade e da sociedade. Na prática, é um convite para a arquitetura alargar o seu campo de intervenção. Ou seja, não pode limitar-se ao design dos edifícios, deve, também, interessar-se pelas suas relações com o espaço público, com as infraestruturas e, em particular, com as infraestruturas subterrâneas, que hoje representam um dos grandes desafios para as cidades. O futuro da arquitetura reside, sem dúvida, nesta capacidade de ir além do seu próprio perímetro, de pensar a cidade em toda a sua complexidade e de encontrar soluções que vão além do simples objeto arquitetónico.

O conceito de “cidade sustentável” é uma resposta aos múltiplos desafios que as cidades enfrentam. Como aplicá-lo?
A primeira medida é quase senso comum: as cidades não devem continuar a expandir-se para além do território já construído. O princípio de “construir a cidade sobre a cidade” é hoje mais relevante do que nunca. A cidade sustentável começa quando se usa melhor o que já existe. Mas isto pressupõe uma segunda condição, igualmente essencial: conhecer melhor a cidade onde vivemos.
Atualmente, faltam-nos dados precisos sobre o seu estado real. Por exemplo, até que ponto somos capazes de identificar que proporção do parque edificado pode ser reabilitado para cumprir os requisitos ambientais? Falamos de 30%, 50%, ou mais? Ninguém sabe ao certo. E esta falta de conhecimento é um enorme obstáculo. Falamos constantemente sobre “a cidade do futuro”, mas antes de podermos imaginar o seu futuro, temos primeiro de conhecer e compreender a cidade de hoje. Só a partir desse conhecimento podem ser desenvolvidas estratégias verdadeiramente sustentáveis.

E como podemos desenhar a cidade para melhor lidar com os efeitos das alterações climáticas?
De uma maneira muito esquemática, eu distinguiria dois tipos de cidades. Por um lado, as cidades europeias, moldadas por séculos de história, que foram gradualmente construídas pela sedimentação. Nestes casos, a resposta às alterações climáticas começa pela reabilitação, adaptação e uma multiplicidade de soluções locais, capazes de tirar partido do que já existe. Por outro lado, as cidades contemporâneas, que surgiram principalmente no século XX e que continuam a desenvolver-se, em particular na Ásia, África e outras regiões do mundo. Nestas metrópoles em rápido crescimento, onde a construção nova é maioritária, é possível implementar abordagens mais sistémicas e impor novas regras que respondam diretamente às questões climáticas.
Em suma, na Europa, temos de aprender a transformar aquilo que já existe de uma forma inteligente. Nas outras geografias, onde as cidades continuam a ser construídas, devemos garantir que os novos edifícios integram os requisitos ambientais do futuro desde a sua conceção.

O que podemos aprender com o impacto do turismo em várias cidades europeias em termos de planeamento urbano e desenvolvimento sustentável?
É uma situação paradoxal. Não há razão para se ter aversão a turistas. Mas o turismo de massas acaba, muitas vezes, por fragilizar o património e as formas de sociabilidade que compõem a identidade das cidades. Portanto, não se trata de adotar uma postura anti-turismo, mas sim de repensar as condições de acesso e partilha das cidades, em particular das cidades europeias. Aqueles que as visitam e aqueles que nelas vivem devem poder coexistir em harmonia. Isto pressupõe novas formas de civilidade e uma verdadeira aprendizagem de convivência. Visitar uma cidade não deve ser um simples ato de consumo. Também implica uma dimensão cultural, a compreensão do lugar e o respeito por quem o habita.

Partilhar conhecimento entre arquitetura e planeamento urbano é uma condição essencial para “fazer cidade”. Como pode ser fomentada?
Partilhar é uma condição absolutamente essencial. Mas essa partilha não deve ser reduzida a uma mera concertação ou abordagem participativa no sentido político do termo. Partilhar é, acima de tudo, partilhar um projeto. A cidade constrói-se quando arquitetos, urbanistas, paisagistas, engenheiros e todos os designers desenvolvem uma visão comum e colocam as suas competências ao serviço do mesmo projeto. O seu papel é também revelar e moldar uma inteligência coletiva que emana daqueles que vivem e praticam a cidade. É esta capacidade de transformar uma diversidade de conhecimentos, experiências e usos num projeto partilhado que constitui a textura, a granularidade da cidade, conferindo-lhe vitalidade e tornando possível a coabitação entre humanos e ecossistemas.