Projetar o futuro da medicina tornou-se um exercício arriscado. “Não sei o que vai acontecer daqui a cinco ou dez anos”, admite Carlos Cortes, Bastonário da Ordem dos Médicos, sublinhando a velocidade da mudança no setor da saúde. Ainda assim, há sinais claros de uma revolução em curso.

“Estamos perante uma transformação sem precedentes nas nossas vidas e não é só na medicina”, afirma, apontando a inteligência artificial (IA) como um dos principais motores desta alteração. Também António de Almeida, médico e diretor do serviço de Hematologia do hospital da Luz e diretor da Faculdade de Medicina da Universidade Católica Portuguesa, identifica um ponto de viragem: “Cada vez mais temos o que chamamos de medicina de precisão, em que identificamos com mais exatidão as doenças, as causas genéticas, as causas hereditárias e com isso é possível ter tratamentos mais especializados.”

O conceito traduz uma mudança estrutural — sair de uma lógica generalista para uma abordagem individualizada. “Deixamos de ter tratamentos iguais para todos, para passarmos a ter tratamentos específicos para cada doente”, explica. Para António de Almeida, esta transformação “vai revolucionar tudo”, desde o diagnóstico até à forma como as doenças são classificadas. A IA surge como o grande catalisador desta nova era.

“A IA aprende e pode até tomar decisões. Nada na história da humanidade tinha tido esta capacidade”, sublinha o Bastonário da Ordem dos Médicos. O seu impacto faz- -se sentir em várias dimensões: da prática clínica à investigação, passando pela gestão hospitalar.

Mas talvez a mudança mais significativa seja menos tecnológica do que humana. “Pode permitir que os médicos se foquem naquilo que verdadeiramente é importante, que é o doente”, destaca.  Ao retirar tarefas administrativas e burocráticas, a tecnologia pode abrir espaço para uma medicina mais próxima e empática. “Pode ser também um grande fator de humanização.”

Os novos médicos

No entanto, esta transformação levanta desafios. A crescente complexidade do conhecimento médico torna impossível ao clínico dominar todas as áreas. “A quantidade de informação que temos terá de ser gerida de forma diferente”, alerta o responsável da Faculdade de Medicina da Católica.

A resposta passará pela tecnologia, mas também por uma mudança profunda na formação. “Temos de ensinar os médicos de maneira diferente, para saberem onde procurar a informação”, afirma. As faculdades já começam a adaptar-se. “Os médicos terminam o curso já com competências de como abordar o doente e onde ir buscar a informação”, afiança. Carlos Cortes reforça a ideia de que esta mudança será visível numa nova geração de profissionais: “O médico de hoje vai ser substancialmente diferente do médico de amanhã”, vaticina.

A preparação tecnológica será fundamental, uma vez que as equipas terão de ser mais multifacetadas. Os médicos têm de dominar o essencial dos sistemas de informação. Esta mudança além de os ajudar no seu dia a dia é fundamental perante a falta de recursos humanos na saúde e no aumento de procura por cuidados médicos.

Paralelamente, o modelo de prestação de cuidados também se transforma. A medicina tende a tornar-se mais preventiva e menos reativa, mais centrada em doenças crónicas e na gestão de doentes complexos. “Vamos deixar de ter uma medicina focada apenas na reação para uma medicina de prevenção”, antecipa António de Almeida.

Ao mesmo tempo, ferramentas como a telesaúde ganham relevância. “Há um conjunto de atividades que podem ser desenvolvidas à distância”, refere Carlos Cortes, destacando a telemonitorização e as videoconsultas como respostas a desigualdades no acesso. Neste novo cenário, “a tecnologia não substitui o médico, mas redefine o seu papel. Ajuda-o e apoia-o. É um instrumento complementar”, garante o bastonário da Ordem dos Médicos.

O verdadeiro desafio será outro: “A questão é se queremos liderar estas mudanças ou deixar que elas se imponham. O caminho adequado é serem os médicos a liderar”, defende.

Que doenças teremos?

Um recente artigo publicado na revista Nature divulgou uma nova tecnologia, o Delphi-2M, inspirado em técnicas de modelos de linguagem que analisa históricos clínicos, conseguindo prever até 1000 doenças duas décadas antes destas se manifestarem. Esta tecnologia abre caminho para a prevenção, mas levanta questões éticas e de privacidade.

Um dos temas debatidos prende-se com a informação que possa ser dada, por exemplo, aos recursos humanos das empresas onde a pessoa trabalha, ou às seguradoras, colocando “o doente” numa posição fragilizada. Mas os avanços também protegem o doente.

Numa conferência dedicada à IA e saúde, realizada este mês na Fundação Champalimaud, em Lisboa, pelo médico oncologista Pedro Gouveia, foi apresentada a Georgina, um manequim utilizado pelas equipas para acelerar o desenvolvimento de tecnologia médica. “Este permite testar equipamentos, processos e soluções tecnológicos antes de serem testados em pessoas, reduzindo riscos e ajudando a identificar antecipadamente problemas que poderiam surgir num bloco operatório.”

E a indústria farmacêutica?

Também do lado da indústria farmacêutica, o futuro da medicina é visto como profundamente ligado à inovação e ao impacto económico e social. “O futuro da medicina será cada vez mais personalizado, preventivo e orientado por dados”, afirma Helena Freitas, diretora-geral da Sanofi, sublinhando que os avanços na biotecnologia, genómica e inteligência artificial estão a permitir desenvolver tratamentos mais ajustados às características de cada doente.

A responsável destaca ainda o papel crescente da medicina de precisão, das terapêuticas avançadas e dos ensaios clínicos mais digitais, particularmente em áreas como o cancro, as doenças imunitárias e as doenças raras.

Segundo um estudo da EFPIA, cada euro investido em medicamentos inovadores gera um retorno de 5,67 euros na Europa, tendo contribuído, entre 2014 e 2022, para a redução de 1,83 milhões de anos de vida perdidos antes dos 85 anos e de 20,9 milhões de dias de internamento hospitalar. “Estes resultados demonstram que a inovação terapêutica contribui simultaneamente para melhores resultados em saúde e para a sustentabilidade dos sistemas de saúde”, considera. Helena Freitas, diz ainda que “a inovação em saúde é o resultado de um esforço coletivo”, apontando a colaboração entre doentes, profissionais de saúde, investigadores, hospitais, reguladores e indústria como essencial para responder aos desafios de um contexto marcado pelo envelhecimento da população e pelo aumento das necessidades em saúde.

Na sua opinião, investir em investigação e inovação é apostar no futuro dos doentes e na capacidade dos sistemas de saúde responderem aos desafios das próximas décadas. Moral da história: entre algoritmos e decisões humanas, o futuro da medicina desenha-se como um equilíbrio delicado. Mais tecnológico, mas, também, paradoxalmente mais humano. Porque no centro de todas as transformações, há um parâmetro que nunca vai mudar: o doente!