Com Estados Unidos, Canadá e México a iniciarem a revisão formal do T-MEC (Tratado entre México, Estados Unidos e Canadá), “prevê-se que as negociações sejam particularmente complexas e com importantes implicações para o comércio na América do Norte”, refere um ‘research’ da consultora Coface. No entanto, “apesar das crescentes tensões entre os três parceiros e das exigências da administração Trump para modificar aspetos essenciais do acordo”, os economistas da Coface consideram pouco provável uma rutura da integração económica, devido ao profundo grau de interdependência industrial entre os três países. “Afinal, as exportações para os Estados Unidos representam 30% do PIB do México e 17% do PIB do Canadá”.
O dia 1 de julho marcou o início da primeira revisão oficial do T-MEC, que entrou em vigor em 2020 para substituir o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (TLCAN). Esta revisão, inicialmente concebida como uma simples atualização, está a decorrer num contexto de fortes tensões comerciais.
A administração Trump “pretende renegociar em profundidade várias disposições do tratado, nomeadamente as regras de origem para o setor automóvel, as relações comerciais com a China, o acesso ao mercado canadiano de produtos lácteos e determinadas políticas energéticas mexicanas. Perante estas exigências, México e Canadá têm motivos sólidos para manter posições firmes, o que sugere negociações longas e complexas”.
Desde a entrada em vigor do T-MEC, o valor total do comércio entre os Estados Unidos e cada um dos seus dois vizinhos aumentou de cerca de 615 mil milhões de dólares em 2019 para quase 800 mil milhões em 2022, ultrapassando a China como principal parceiro comercial dos EUA.
Esta interdependência é particularmente evidente em setores estratégicos. Canadá e México representam 51% dos veículos importados pelos Estados Unidos e 58% dos componentes automóveis adquiridos no estrangeiro. Em alguns casos, um componente automóvel cruza a fronteira entre EUA e México entre cinco e sete vezes antes de ser integrado num veículo final. Estas complementaridades são igualmente fortes no setor energético, onde o Canadá representa 60% das importações norte-americanas de petróleo bruto.
Em suma, “as cadeias de valor norte-americanas tornaram-se demasiado integradas para que uma reversão possa ocorrer sem custos económicos significativos. No contexto da atual guerra comercial, a relevância do acordo tem vindo a aumentar. O cumprimento das normas do T-MEC tornou-se o principal meio para que empresas canadianas e mexicanas obtenham isenções tarifárias. Os produtos conformes ao T-MEC ficaram isentos da maioria das tarifas impostas sucessivamente pela Casa Branca”.
Esta situação confere atualmente ao Canadá e ao México uma vantagem competitiva significativa face a outros parceiros comerciais dos EUA, especialmente a China. Num contexto de reorganização das cadeias de abastecimento globais, o acesso preferencial ao mercado norte-americano tornou-se um ativo estratégico de primeira ordem para ambos os países.
Contudo, “este sucesso também tem aumentado as tensões em torno do tratado. À medida que se amplia a diferença entre as condições de acesso concedidas aos parceiros norte-americanos e as impostas à China, Washington receia que a sua política comercial seja contornada e que Pequim continue a manter influência em determinadas cadeias de abastecimento regionais. Por isso mesmo, os EUA pretendem endurecer certas disposições do acordo, especialmente as regras de origem do setor automóvel e o quadro que regula as relações comerciais dos seus vizinhos com a China”.
As conversações poderão prolongar-se até 2027. As posições atualmente defendidas parecem difíceis de conciliar e as primeiras reuniões preparatórias não conseguiram reduzir as divergências. “Ainda assim, o cenário de uma retirada total dos Estados Unidos sem uma solução alternativa continua a ser pouco provável. Uma decisão desse tipo provocaria perturbações significativas nas cadeias de abastecimento norte-americanas e em numerosos setores industriais dos três países”.
“Um compromisso pragmático permanece como o desfecho mais credível. Este poderá assumir a forma de concessões específicas que permitam a cada parte proteger os seus interesses estratégicos, mantendo simultaneamente um quadro preferencial para o comércio regional”. “As negociações que agora começam serão longas e conflituosas. Mas a integração industrial construída ao longo de três décadas está demasiado enraizada para ser posta em causa de um dia para o outro. Mesmo em caso de bloqueio em torno do T-MEC, é provável que Canadá e México mantenham algum tipo de acesso preferencial ao mercado norte-americano, já que o custo económico de uma rutura seria considerável para os três países”, afirma, citado pelo estudo, Marcos Carias, economista para a América do Norte da Coface.