Numa semana marcada por novos máximos históricos nos mercados acionistas, os EUA e o Japão atuaram concertados no mercado cambial para travar a desvalorização do iene. A intervenção permitiu uma recuperação da moeda japonesa, mas dificilmente alterará uma tendência que dura há 15 anos. A questão continua a ser: por que permanece o iene tão fraco?

Em 2011, ano em que a população japonesa atingiu o máximo histórico de 128 milhões de habitantes, cerca de 75 ienes compravam um dólar, o nível mais elevado de sempre para a moeda japonesa face à moeda norte-americana. Desde então, iniciou uma tendência de queda e, no final de julho, eram precisos quase 164 ienes para comprar um dólar, o valor mais baixo para o iene desde 1985. Desde março de 2024, o Banco do Japão aumentou a sua taxa de juro diretora de -0,1% para 1% e reduziu o seu balanço em 15%, adotando, assim, uma política monetária marcadamente restritiva que, aliada ao facto de o Japão ser tradicionalmente um país com excedentes nas contas externas, deveria ser mais do que suficiente para suportar a moeda japonesa, sobretudo quando apresenta atualmente um saldo positivo da balança corrente de 5% do PIB, no limite superior das últimas décadas.

Historicamente, o excedente da balança corrente nipónica resultava sobretudo das exportações. As empresas japonesas exportavam automóveis, máquinas e equipamentos eletrónicos, recebiam dólares e convertiam uma parte dessas receitas em ienes para pagar salários, fornecedores, impostos, investimento e dividendos no Japão. Essa postura ditava uma procura estrutural por ienes. Todavia, desde 2011, o excedente da balança corrente passou a depender muito mais dos rendimentos primários do que das exportações de bens e serviços.

Aliás, a balança comercial de bens e serviços, habitualmente excedentária, tem sido maioritariamente deficitária desde 2011, mas a balança corrente continuou a apresentar elevados e crescentes saldos positivos graças ao aumento significativo e contínuo dos rendimentos primários, sobretudo dos dividendos, juros e lucros obtidos pelos investimentos japoneses no estrangeiro.

Sendo o Japão um país pobre em recursos energéticos e fortemente dependente das importações de petróleo e gás natural, seria fácil atribuir o défice da balança comercial de bens e serviços ao aumento dos preços da energia. No entanto, os preços do petróleo não são atualmente superiores aos de 2011. É certo que o encerramento da maioria dos reatores nucleares após o acidente de Fukushima aumentou a dependência das importações de petróleo, gás natural e carvão e que a desvalorização do iene encareceu essas importações em moeda japonesa, mas, ainda assim, estes fatores, por si só, podem não ser suficientes para explicar o défice da balança comercial de bens e serviços.

A crescente internacionalização das empresas japonesas também poderá ajudar a explicar esta evolução. Muitas empresas passaram a produzir no estrangeiro, reduzindo o peso das exportações e aumentando, assim, os rendimentos primários. Além disso, a crescente concorrência da China, da Coreia do Sul e de outras economias asiáticas reduziu a competitividade das exportações japonesas.

Ao contrário das receitas das exportações, os rendimentos primários não têm necessariamente de regressar ao Japão. As empresas podem reinvestir os lucros das suas filiais internacionais. Os investidores podem manter os dividendos e os juros em dólares. Além disso, enquanto as taxas de juro continuam mais elevadas no exterior e o iene permanece fraco, existe um incentivo adicional para manter esses capitais fora do Japão. Talvez estas alterações estruturais, associadas ao envelhecimento da população e perda de 5 milhões de habitantes em 15 anos num país relativamente avesso à imigração, ajudem a explicar a persistente fraqueza do iene.