Quando abriu a mais antiga hamburgueria do país — o Sandwich Bar, na Costa da Caparica — o maior desafio era convencer os clientes a provar carne picada com cebola. Nos anos 70, num país habituado aos pregos e às bifanas, este alimento era um “corpo estranho”. Atualmente, o hambúrguer tornou-se o protagonista de uma indústria sofisticada com opções para todos os gostos: carne bovina, artesanais, smash burgers, até opções gourmet, vegetarianas, veganas, de frango, pato, peixe, sabores exóticos ou até em forma de ovni, como a proposta dos Taste Invaders.

No Príncipe Real, em Lisboa, abriu um novo espaço entre néons, música, DJ e um balcão corrido que faz lembrar mais uma discoteca do que um restaurante tradicional. O projeto chegou à capital pela mão da Plateform, empresa portuguesa de restauração, que se associou à espanhola Vicio para trazer o conceito para o país. A marca nasceu em Espanha, em 2020, fundada por Aleix Puig, vencedor do MasterChef Espanha, e pelo empresário Oriol de Pablo.

Para Tiago Veiga, diretor de marketing da Plateform, a aposta fez sentido apesar da explosão recente de conceitos de smash burgers. “Não é apenas uma hamburgueria — é um universo criativo. A marca sempre apostou numa identidade desafiadora, jovem e altamente sensorial. A experiência acaba por se prolongar do prato para o espaço, o que reforça a ligação emocional e cultural com os nossos clientes”, explica ao Jornal Económico.

Mais do que seguir uma tendência, o que atraiu a Plateform foi a consistência do projeto. “Os smash burgers ganharam destaque por uma certa simplicidade bem executada: carne de qualidade, técnica de esmagamento que intensifica o sabor, e combinações fortes que no fim até têm uma estética muito partilhável nas redes sociais”, acrescenta, sublinhando ainda que “a diferenciação vem da atitude disruptiva, da consistência do produto e do posicionamento como geradores de cultura urbana, e não apenas de restauração”.

O espaço de Lisboa segue a lógica das lojas espanholas: é prático, rápido e pensado para quem não quer perder muito tempo sentado à mesa. “O objetivo agora passa por consolidar a operação local, fazer crescer a notoriedade da marca e expandir de forma estratégica, sempre alinhados com a visão da Plateform de impulsionar novas tendências de restauração e manter a qualidade do produto como prioridade absoluta”, afirma Tiago Veiga.

Também a espanhola Goiko está interessada em entrar em Portugal. A cadeia madrilena foi comprada em 2018 pela private equity da Louis Vuitton (LVHM) por 120 milhões de euros. Já a norte-americana Five Guys continua à procura de espaços em Lisboa e Porto com pelo menos 300 metros quadrados e que estejam localizados nas ruas mais movimentadas da cidade, preferencialmente em esquinas, ou em áreas de grande tráfego pedonal.

Segundo a plataforma Glovo, os pedidos de hambúrgueres através da aplicação aumentaram cerca de 30%, confirmando a preferência nacional por estas refeições. Outro dado curioso é que 11% das encomendas são realizadas entre as 23h00 e as 2h00 da manhã. Faro e Portimão destacam-se como as cidades com maior crescimento nesta categoria, com um aumento de 70% face ao ano passado. As marcas mais procuradas na plataforma incluem McDonald’s, Burger King, Honorato, Ground Burger e H3, revelando uma oferta diversificada que agrada a diferentes perfis de consumidores. Esta última é uma cadeia portuguesa com mais de 50 restaurantes e divulgou os hambúrgueres mais populares entre os consumidores portugueses ao longo de 2024. Os números são expressivos: cada uma das três opções mais pedidas ultrapassou o milhão de unidades vendidas.

Segundo a análise da Informa D&B, o segmento de fast food continua a ganhar quota de mercado na restauração, representando 29% do total em 2024, com uma faturação de 1.640 milhões de euros. “O crescimento deve-se a vários fatores: a procura por refeições rápidas de qualidade, saborosas e com valor proteico; a influência das tendências internacionais e o papel das redes sociais na descoberta de novas marcas; e a própria evolução do setor de quick service em Portugal. Neste contexto, uma marca como o Vicio, que combina sabor, criatividade e experiência, acaba por contribuir, e muito, para elevar a fasquia e atrair novos consumidores”, explica Tiago Veiga, diretor de marketing da Plateform.

A cadeia de restauração portuguesa Street Smash Burgers terminou o primeiro ano de atividade com um volume de negócios superior a 12 milhões de euros. Em 2026 esperam faturar 25 milhões de euros e abrir mais restaurantes em Portugal, Itália e Suíça. A empresa iniciou 2025 com três unidades em funcionamento em Portugal e terminou o ano com uma rede de 20 restaurantes em três países, vendendo mais de 800 mil hambúrgueres. Desde o seu lançamento em março de 2024, com a primeira unidade em Campo de Ourique, Lisboa, a Street Smash Burgers implementou uma estratégia de crescimento acelerado que lhe permitiu ultrapassar a marca dos 200 colaboradores, e consolidar uma estrutura corporativa com sede na capital portuguesa, apoiada por uma equipa de mais de 20 profissionais.

Em 2026, a Street Smash Burgers prevê entrar em novos mercados internacionais e consolidar a sua liderança em Portugal, além de reforçar a sua presença em Itália e na Suíça. Estas regiões representam já mais de 50% das receitas do grupo e tornaram-se motores de crescimento essenciais. “O nosso objetivo é construir uma plataforma europeia sólida e escalável, com ênfase na qualidade do produto e na excelência operacional”, afirma Carlos Antón Conde, cofundador da Street Smash Burgers, ao Jornal Económico.

Hambúrgueres de Chef

Durante a década de 1980, Portugal atravessava um período de modernização e abertura ao exterior. O crescimento das cidades e a expansão dos centros comerciais alteraram os hábitos de consumo da população. Neste contexto, surgiram novos conceitos de restauração rápida inspirados no modelo americano, marcando o início da cultura de fast food no país. Depois da “Sandwich Bar”, surgiu a marca “The Great American Disaster”, em 1980, seguido do “Garden Burger” no Centro Comercial das Amoreiras. No entanto, o conceito de fast food em cadeia teve uma das suas primeiras aparições com a Max Burger, em 1982, seguido da McDonald’s, em 1991, e Burger Ranch (1992). Já o Burger King, que abriu a primeira loja em território nacional em 2001, tem mais de 200 restaurantes em Portugal e fatura 250 milhões de euros. Agora, segundo uma notícia divulgada pelo jornal espanhol “Expansion”, a gestora britânica de capital de risco Cinven quer vender a Restaurant Brands Europe (RBE) que detém esta cadeia em Portugal e Espanha. O grupo está avaliado atualmente em três mil milhões de euros e vários pesos pesados do capital de risco a nível internacional já se mostraram interessados, incluindo o Apollo, CVC, KKR ou TDR. Por outro lado, a McDonald’s conta atualmente com mais de 10 mil colaboradores e 200 restaurantes. Faturou 580 milhões de euros em 2022.

Depois de se afirmar como um produto de consumo massificado, o hambúrguer começou a ganhar novo estatuto, deixando de pertencer apenas às grandes cadeias e passando a despertar o interesse da alta cozinha. Rodrigo Castelo, chef do Ò Balcão em Santarém e que tem uma estrela Michelin, aventurou-se com um projeto de hambúrgueres em Lisboa. A Quack Shack, instalada no bairro de Alvalade, é a casa dos hambúrgueres artesanais de pato confecionados pelo chef. A carta apresenta combinações que unem técnica e ingredientes criteriosamente selecionados. No ano passado foi a vez de Ljubomir Stanisic lançar, numa parceria com a Burguer King, o King Ljubomir. Também Rui Silvestre, chef do restaurante Fifty Seconds, em Lisboa, com uma estrela Michelin, criou em 2023 a “Son of a Burger” com espaço próprio no Estádio da Luz, em Lisboa, e disponível nas plataformas de distribuição. Na Península Ibérica, em 2024, chegou ao mercado o “King Dabiz”, resultado da colaboração entre a Burger King e o chef David Muñoz do restaurante madrileno DiverXO, com três estrelas Michelin. O hambúrguer deixou de ser apenas fast food e tornou-se um barómetro das novas formas de comer e consumir em Portugal.