Muitos especialistas, comentadores, jornais, revistas especializadas andam a debruçar-se, desde algum tempo, sobre o montante e a evolução da dívida dos EUA e seu impacto na queda da Hegemonia do país e, por arrasto do Ocidente global.
Em concreto, a dívida pública americana tem vindo a crescer de forma galopante. Em finais de 2020, o seu montante ascendia a 23,2 biliões de dólares (unidade 1*12 zeros), enquanto, em Fevereiro de 2026 (5 anos e dois meses depois), atingia 38,6 biliões, com a relação Dívida/PIB (nesta data) em 124,28%. Agora, que as condicionantes da dívida futura americana se alterarão com o esforço da guerra do Irão, muita água vai correr sobre esta temática que já andava a abalar as contas dos EUA.
Para 2026, a previsão, antes do esforço da guerra, só com o pagamento dos juros líquidos da dívida, era bem acima de um bilião de dólares. Agora, impossível avançar um valor. O que se sabe é que o esforço financeiro da guerra vai parar todo à dívida pública, devido a falta de cabimento orçamental.
Por outro lado, vários especialistas colocam a questão de que serão os BRICS e a China, os grandes beneficiários deste andamento da dívida, na medida em que cada vez estão a ser reunidas as condições para um Mundo Financeiro Multipolar e Descentralizado.
Aliás, nada de novo, pois caminhar para esse outro Mundo ou para uma nova Ordem financeira sempre foi um dos desígnios do grupo BRICS, pois sempre viram, nesta forma de organização financeira, uma resposta de equilíbrio contra o domínio dos EUA, que decorre do acordo de Bretton Woods de 1944.
Mas uma nova questão se coloca agora. Este esforço, que vem aumentar o montante da dívida, não tenderá a acelerar e a desequilibrar de forma perigosa a já débil situação dos EUA?! Num país, com uma moeda normal, seria sinal de default/não pagamento.
Convém, anotar, também, que grassam grandes equívocos sobre o mundo dos BRICS, designadamente a ideia de que “aquilo que os separa é bem maior do que aquilo que os une”.
Esta visão tem, na raiz, uma premissa falsa, pois assenta num equívoco ideológico, que nunca foi a causa agregadora dos países BRICS.
Na sua associação, a grande causa de aproximação assentou muito pouco numa escolha ideológica e muito na experiência vivida de que as estruturas da Governação mundial existentes (FMI, Banco Mundial, ONU…) não eram ajustáveis à realidade social e económica do Mundo, ou seja, os países (depois BRICS) começaram a cooperar entre si por uma comunidade de interesses variada, no sentido de os tentar articular no terreno, pois a situação real encontrava-se e continua muito distorcida, em benefício exclusivo dos países do Ocidente global e dos EUA em particular, que nunca deram espaço a qualquer negociação, a não ser como diz Trump: “privilegiamos a diplomacia na gestão dos conflitos”, desde que, “o lado contrário aceite aceitar o que se quer, nem que seja pelo uso da força” ou seja, “a diplomacia do canhão”.
No debate sobre os BRICS, é útil perceber ainda que não se está perante um grupo de países “homogéneos”. Coexistem objectivos estratégicos diferentes, tensões consideráveis, rivalidades geopolíticas, choque de prioridades e alinhamentos políticos diversos. Basta olhar para os países BRICS do Médio Oriente, mas não só.
Mas, as iniciativas desenvolvidas anualmente, algumas já com estatuto de carácter permanente que atravessam as Presidências, embora pouco divulgadas, por barreiras colocadas aos Media, não pelos BRICS, como é evidente, mas por entraves de países adversários críticos, designadamente do Ocidente, têm tido um papel muito agregador na criação de laços profundos entre os países-membros e estas iniciativas, que se desenvolvem em áreas muito diversas, ultrapassam, em cada ano, mais de uma centena, envolvendo muitos milhares de pessoas.
Esta falta de uniformidade imprime, por outro lado, aos BRICS um espírito de coexistência, bem diferente de num instrumento clássico de poder onde tudo é muito regrado e levou a que as decisões sejam tomadas por Consenso e os Compromissos deliberadamente amplos.
Voltando à dívida pública dos EUA
A dívida, como se referiu, tem vindo a acusar uma trajectória de crescimento acelerado e agora tudo indica, acelerará, ainda mais, mesmo que provisoriamente.
Até o próprio FMI está “assustado”, pois já apontava para a insustentabilidade deste ritmo, para além de que o “privilégio exorbitante” do dólar americano, de que Giscard d’Estaing, enquanto Ministro das Finanças, fazia referência em 1965, está em perda de potencialidades no contexto do sistema financeiro mundial.
Na realidade, a vantagem única que dava aos EUA ter um dólar como a principal moeda de reserva a financiar défices sem custos, imprimir moeda sem efeitos imediatos na inflação e uma certa imunidade cambial está com perda de efeitos de forma acelerada, pois os países, sobretudo os grandes credores mundiais dos EUA estão a reduzir a exposição ao dólar de forma sustentada.
Os custos com a dívida de hoje atingem valores que pesam e limitam o funcionamento e acção da economia americana, apesar de Trump, no discurso de Estado da Nação “ter desencantado” uns quantos valores fenomenais para a situação da economia dos EUA. Esses números fantásticos não resolveram as incertezas criadas pela anulação pelo Supremo Tribunal de muitas das taxas aduaneiras e, sobretudo, pelo caos administrativo que a sua devolução coloca, agravada pelo desentendimento Tribunal/Administração Trump, em termos de calendário da mesma.
O esforço de gastos públicos com a guerra no Médio Oriente, esta telecomandada completamente pelo governo de Israel, é de difícil avaliação, pois dependerá muito do tempo de duração, só vem empolar, complicar e agravar ainda mais a situação da dívida pública americana no curto prazo.
Por outro lado, assiste-se cada vez a uma economia “ensanduichada” num colete de fragmentação do domínio do dólar. As diversas formas que a Desdolarização está a tomar, as iniciativas em curso que grupos de países como os BRICS estão a desenvolver para se desligarem dos sistemas ocidentais, trazem complicações maiores à situação da economia dos EUA que vai ter de avançar com medidas restritivas, a partir de 2026, em que se pensa que o custo da dívida vai disparar a ritmos muito mais elevados que o da economia que tenderá a cair.
Este embate já está a afectar toda a economia mundial, onde a zona europeia não fica ausente nem isenta de consequências negativas, pois está já a apanhar os efeitos da crise energética sobretudo pelo lado do gás natural.
E será que Krugman terá razão (artigo de 2 de Março 2026) quando diz, face à guerra do Golfo, o maior problema pode até ser uma grave crise financeira global e, menos, uma crise energética, porque, hoje, o Golfo mudou e é muito mais um centro financeiro, de viagens e turismo…?
Esperemos que tudo não passe de uns abalos, infelizmente, já com muitos mortos. Mas, se Trump continuar a deixar-se comandar por Netanyahu, tudo é possível, com consequências imprevisíveis, embora diferenciadas, para toda a economia mundial.