O debate em torno da reindustrialização do nosso país leva-nos sempre à inovação e ao aumento do valor acrescentado. Um fator que pode contribuir positivamente para reforçarmos a competitividade é custo da energia. Novos modelos de produção para descarbonizar consumos e cumprir a agenda verde onde Portugal pode ser líder precisam-se, aproveitando a (boa) regulamentação que já existe.

Mudam-se os tempos, não se mudam as vontades. Seja no uso doméstico, seja no uso industrial, a procura por energia vai continuar a aumentar nas próximas décadas, prevê a Agência Internacional de Energia. Nem os múltiplos riscos e a incerteza fazem parar o apetite voraz dos consumidores, servido por um menu feito de mais digitalização da economia, com a construção de novos data centers, e mais descarbonização da atividade, que é como quem diz mais eletrificação do consumo de energia.

Em paralelo, o atual movimento de reindustrialização verde, que entrou em força no discurso mediático através do relatório Draghi, veio para ficar, em toda a Europa, e Portugal não é exceção. Sobre isto, a Associação Portuguesa da Energia (APE) publicou um interessante white paper intitulado “Competitividade energética como vetor de reindustrialização”. Neste contexto, é imperativo aumentar a capacidade de geração de energia e, simultaneamente, descarbonizar o consumo.

Sem energia não há indústria. Se esta quer responder à transição energética, é tempo de olhar para soluções que podem fazer a diferença, sendo o autoconsumo individual e coletivo em Comunidades de Energia uma janela de oportunidades ainda com grande potencial para explorar, que o Plano Nacional de Energia e Clima (PNEC) dá o devido crédito e reconhecimento.

O crescimento deste tipo de geração energética, que é acompanhada de regulamentação pioneira a nível europeu, tem permitido tornar o país numa referência para a reindustrialização baseada em energia limpa e endógena. Enquanto modelo de autoconsumo coletivo que pode gerar energia renovável com preço competitivo junto aos locais de consumo, acompanhar a crescente eletrificação da economia e mitigar, significativamente, a contribuição dos gases com efeito de estufa nos produtos manufaturados, as Comunidades de Energia são um contributo efetivo para a reindustrialização verde: por um lado, permitem diminuir a pegada carbónica; por outro lado, promovem a produção de mais energia solar a nível local, estável e com previsibilidade de custos a longo prazo.

Uma das barreiras à transição energética é o investimento necessário em novas soluções de geração de energia. Para o caso do solar descentralizado, individual ou coletivo, o investimento é assegurado por promotores através de um contrato de fornecimento de eletricidade a longo prazo ou PPA – Power Purchase Agreement. Este modelo de negócio garante estabilidade de preços a longo prazo e a maximização da performance da instalação garantida integralmente pelo promotor.

No white paper da Agência Portuguesa da Energia, é dado destaque à agilidade no acesso à rede, essencial para evitar barreiras ao desenvolvimento empresarial, facilitando a expansão da atividade económica e a iniciativa empresarial. No entanto, as metas do PNEC são ambiciosas e pressupõem mais pressão, exigindo uma reestruturação, transversal aos diferentes níveis de tensão, bem como aceleração de soluções de produção e consumo local através do autoconsumo coletivo e armazenamento em baterias, diminuindo o stress na rede elétrica.

O futuro está na eletrificação e Portugal tem uma vantagem natural para responder ao desafio, graças à energia renovável que consegue produzir, mais barata do que a média europeia. Assim, será possível atrair e reter atividades económicas com consumos de energia elevados, como a cerâmica, os data centers, o agroalimentar, ou outros de igual elevado valor acrescentado. As Comunidades de Energia e o enquadramento legal do autoconsumo coletivo reforçam esta posição de liderança que Portugal pode alcançar.