Imagine que a guerra atual, envolvendo os Estados Unidos, Israel e o Irão, se desenrolava num sistema energético diferente. Não num futuro distante ou utópico, mas num futuro plausível: um mundo onde a eletricidade é gerada predominantemente a partir de energia eólica e solar, onde o transporte é largamente eletrificado e onde a energia é produzida maioritariamente dentro das fronteiras nacionais ou regionais.

Num sistema assim, uma escalada militar no Médio Oriente continuaria a ser uma crise geopolítica, mas as suas ondas de choque económicas seriam significativamente contidas. Os preços da eletricidade e da gasolina por toda a Europa seriam pouco afetados. E a fatura energética das famílias não dispararia devido às tensões num estreito corredor marítimo a milhares de quilómetros de distância.

Isto não é uma conjetura. Numa análise recente publicada em “The Conversation”, investigadores do King’s College London modelaram precisamente esse cenário. A sua conclusão é inequívoca: num sistema altamente eletrificado e maioritariamente assente em energias renováveis, a perturbação causada pelo conflito no Golfo seria drasticamente reduzida. O mecanismo de transmissão automática, desde a instabilidade no estreito de Ormuz até aos choques de preços nas economias europeias, seria drasticamente menor. No entanto, não é esse o mundo em que vivemos.

Poucos dias depois dos primeiros ataques, os preços do petróleo dispararam quase 20%, passando de cerca de 70 dólares por barril para mais de 100 dólares, tendo-se aproximado dos 110 dólares (cerca de 95 euros). A explicação é bem conhecida: cerca de um quinto do petróleo comercializado no mundo ainda passa pelo estreito de Ormuz. Quando as tensões aumentam, os mercados globais reagem instantaneamente, indiferentes à mensagem política transmitida por Washington, por mais confiante (ou teatral) que esta seja.

E quando os mercados energéticos reagem, os cidadãos europeus pagam a fatura. Se os preços dos combustíveis sobem, os transportes, os bens alimentares e a indústria transformadora também são afetados, traduzindo a instabilidade geopolítica numa pressão económica constante. As guerras travadas longe das fronteiras europeias não são acontecimentos distantes – refletem-se na bomba de gasolina e nas prateleiras do supermercado. Este mecanismo é tão familiar que é rotineiramente confundido com uma inevitabilidade, um equívoco que serve àqueles que beneficiam da sua persistência.

Mas não é uma inevitabilidade. É o resultado de escolhas, repetidas, defendidas e raramente questionadas. Aquilo a que assistimos não é simplesmente o impacto de um conflito distante, mas a exposição de uma vulnerabilidade estrutural. A guerra é o ‘gatilho’. A dependência é a causa.

E essa dependência foi claramente identificada ao mais alto nível. Há duas semanas, o chefe das Nações Unidas para o clima, Simon Stiell, alertou, em Bruxelas, para o facto de a Europa “depender das importações de gás e petróleo mais do que quase qualquer outra grande economia”, uma dependência que custou à União mais de 420 mil milhões de euros só em 2024. Mesmo antes da atual escalada, o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, descreveu a dependência global dos combustíveis fósseis de forma contundente: uma “dependência” que deixa as economias expostas e as sociedades vulneráveis.

A linguagem não é retórica, é diagnóstica. Os combustíveis fósseis não são simplesmente mercadorias. São vetores de instabilidade que ligam a disrupção climática, a volatilidade económica e o risco geopolítico num único sistema de dependência.

Este padrão já não é hipotético. O choque energético após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 demonstrou o quão profundamente as economias europeias continuaram enraizadas nas cadeias de abastecimento dos combustíveis fósseis. Os preços da gasolina dispararam, os mercados de eletricidade ficaram instáveis e os governos mobilizaram vastos recursos públicos para proteger as famílias e a indústria. O custo dessa dependência não foi apenas económico, mas também político, restringindo as escolhas de política externa e expondo divisões internas.

No entanto, essa crise também criou um raro momento de clareza estratégica. Ao cortar as importações de energia russa, a União Europeia deparou-se com uma encruzilhada. Poderia ter aproveitado esse momento para romper com a geopolítica fóssil, acelerando o European Green Deal (Pacto Ecológico Europeu) como agenda climática e, acima de tudo como estratégia para a independência geopolítica. Ou seja, reduzir as importações de fósseis, escalar a energia eólica e solar, eletrificar a economia e construir uma verdadeira autonomia energética.

Por um breve momento, esse caminho pareceu estar ao nosso alcance. Mas não foi trilhado.

Sob pressão industrial e política sustentada, o ritmo da transição abrandou. A narrativa mudou, da transformação para o “equilíbrio”, da urgência para o “pragmatismo”. O que tinha sido enquadrado como uma necessidade estrutural tornou-se negociável. A dependência dos combustíveis fósseis não desapareceu. Adaptou-se, renomeou-se e, com o tempo, reafirmou-se.

Agora, enquanto a guerra volta a agitar os mercados energéticos globais, a Europa encontra-se numa posição assaz familiar: exposta, reativa e com uma margem estratégica limitada. Isto é particularmente evidente na evolução da relação com os Estados Unidos.

A redução das importações de gás russo tem sido, muitas vezes, apresentada como uma história de sucesso de diversificação. Na realidade, resultou em grande parte no redirecionamento da dependência. As importações de gás natural liquefeito dos Estados Unidos dispararam, reforçadas por contratos de longo prazo e compromissos políticos que correm o risco de amarrar a Europa a um novo ciclo de dependência de combustíveis fósseis durante décadas.

Esta dinâmica raramente é descrita em termos explícitos, mas sim apresentada como uma parceria, um acordo entre aliados. Ora, as alianças não eliminam as assimetrias. Antes as apagam.

A crise atual ilustra a contradição. À medida que os líderes europeus se reúnem em sucessivos Conselhos, projetam unidade na resistência à escalada militar no Golfo e no distanciamento da postura confrontacional de Washington. No entanto, por trás dessa posição política existe um alinhamento mais discreto e consequente, através da energia, e através de uma agenda mais ampla de desregulamentação.

A Europa pode estar a dizer não aos navios de guerra. Mas está, cada vez mais, a dizer sim à dependência. É aqui que a linguagem da “simplificação” se torna particularmente reveladora. Na sua mais recente comunicação pré-cimeira, a Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, enfatizou a vontade de conduzir os esforços de simplificação “para um novo patamar.” Apresentada como eficiência administrativa, esta agenda tem consequências políticas consideráveis. Na prática, isso traduz-se frequentemente no enfraquecimento das salvaguardas ambientais, na diluição das normas regulatórias e na expansão do espaço para prioridades de mercado a curto prazo.

Tratar a desregulamentação como um remédio universal pode ser politicamente conveniente no imediato, mas tem custos, pois compromete a regulação concebida para reduzir a vulnerabilidade estrutural, enquanto reforça a dependência de sistemas externos, como os combustíveis fósseis importados.

“Simplificação”, neste sentido, poderá ser uma expressão mais aceitável para renúncia estratégica. Isto é ainda mais evidente no debate sobre o Pacto Ecológico Europeu. Os apelos para enfraquecer ou atrasar a sua implementação são cada vez mais justificados em nome do realismo económico. Mas a crise atual expõe a falha desse argumento.

Não é a política climática que gera e impulsiona a instabilidade de preços, mas sim a exposição aos mercados de combustíveis fósseis. Enfraquecer o Pacto Ecológico não protege os cidadãos europeus, antes prolonga a sua exposição. Substitui soluções estruturais por alívio temporário, mantendo intacta a vulnerabilidade subjacente. É, na prática, uma decisão para permanecer dependente.

Contudo, existe uma alternativa, e já está a ser implementada.

Espanha é um dos exemplos mais claros de como esta trajetória pode ser diferente, à imagem do que Portugal tem feito ao expandir a produção de energias renováveis, incluindo a eletricidade. Sob a liderança de Pedro Sánchez, a política energética espanhola passou a combinar a rápida expansão de energias renováveis com intervenções deliberadas nas estruturas de mercado, a fim de proteger os cidadãos da volatilidade. A “exceção ibérica”, que limitou a transferência dos preços do gás para os mercados de eletricidade, não foi apenas um ajuste técnico. Foi uma escolha política: dar prioridade à estabilidade social e à responsabilidade democrática.

Em toda a Península Ibérica, o investimento sustentado em energia eólica e solar já começou a reduzir a dependência estrutural de combustíveis importados, aumentando a resiliência perante choques externos, demonstrando que a soberania energética não é um objetivo distante, mas uma escolha política em curso.

Igualmente importante é a dimensão democrática desta abordagem. Em vez de contornar as instituições em nome da urgência, este modelo incorpora a transição energética num contrato social mais amplo. Reconhece que a política energética não remete apenas para oferta e procura, mas também para distribuição, justiça e legitimidade política.

Isto contrasta fortemente com as tendências europeias mais amplas, onde a urgência é cada vez mais usada para justificar a marginalização dos processos democráticos ao nível da União. A tomada de decisões informais, os procedimentos acelerados e a coordenação executiva correm o risco de substituir o escrutínio parlamentar e enfraquecer o debate público. Ou seja, cria-se um ambiente propício ao crescimento da influência dos interesses organizados cresce, logo, à redução do espaço para o pensamento estratégico a longo prazo.

Abrandar a transição não é o único risco que enfrentamos, mas também o facto de o seu redirecionamento afastar a UE da autonomia, abrindo caminho a uma nova configuração de dependência.

Neste contexto, a guerra atual deve ser entendida como mais do que um conflito regional com repercussões globais. É outro sinal, após a crise energética de 2022, dos custos estruturais da dependência dos combustíveis fósseis. Esses custos são cumulativos. Os combustíveis fósseis ligam a instabilidade climática, a vulnerabilidade económica, a desigualdade social e a exposição geopolítica num único sistema. Choques de preços afetam desproporcionalmente os mais vulneráveis. Os orçamentos públicos absorvem o impacto e as escolhas políticas tornam-se limitadas.

Cada crise reforça o padrão. Quebrar esse padrão exige uma decisão política efetiva para o ultrapassar. O Pacto Ecológico Europeu continua a ser o enquadramento mais coerente disponível para alcançar essa mudança. Não porque esteja isento de críticas, mas porque aborda a raiz do problema: a própria dependência. E oferece um caminho para um sistema energético que não é apenas de baixo carbono, mas também estruturalmente mais estável e politicamente mais autónomo. Enfraquecê-lo agora não seria pragmático, seria, sim, falta de visão.

Se alguma coisa a crise atual reforça é o argumento para acelerar, pois todo e qualquer atraso prolonga a exposição da Europa. Cada novo compromisso com os combustíveis fósseis aprofunda a dependência. Cada concessão à pressão de curto prazo aumenta os custos a longo prazo.

Já deveríamos ter aprendido a lição. As crises energéticas na Europa não são anomalias. São resultados previsíveis de uma condição estrutural não resolvida. A causa pode diferir: uma pandemia, uma guerra na Ucrânia, um conflito no Golfo, mas o mecanismo mantém-se constante. E as consequências também. A escolha que os decisores europeus enfrentam não é entre ambição climática e estabilidade económica. É entre autonomia e dependência. Num momento como o atual, não deveria ser difícil fazer tal distinção.

A resposta adequada à crise atual não é recuar, mas avançar. Defender e fortalecer o Pacto Ecológico Europeu. Resistir à normalização silenciosa da dependência, seja ela apresentada como parceria, simplificação ou necessidade. E garantir que o futuro energético da Europa será moldado pelos seus objetivos estratégicos e não pela pressão externa.

Com o tempo, a guerra no Golfo irá abrandar. Resta saber se a Europa voltará a absorver o choque ou se escolhe, de uma vez por todas, enfrentar as causas. Isto, porque o verdadeiro custo da dependência não se mede apenas em euros. Mede-se em soberania, o único recurso que a Europa já não pode dar-se ao luxo de terceirizar.

Especialista escreve sob pseudónimo.