Portugal fala muito de inovação, mas continua sem uma política pública que a transforme numa estratégia nacional coerente. Multiplicam-se planos, agendas e discursos, mas falta aquilo que distingue os países que avançam dos que permanecem estagnados: visão, continuidade, planeamento e responsabilidade. E falta, sobretudo, reconhecer o que permanece invisível para quem decide: não existe inovação eficiente quando metade do talento é sistematicamente ignorado.

A ausência de uma política séria de inovação — em Portugal e, demasiadas vezes, também na própria União Europeia — caminha lado a lado com a desvalorização persistente do papel das mulheres na economia do conhecimento. A Constituição exige ao Estado que promova o desenvolvimento científico e tecnológico, a igualdade e a eficiência económica. Os Tratados da União Europeia repetem estes compromissos. Mas princípios sem execução transformam-se em slogans, e slogans não mudam países.

O país continua preso a iniciativas soltas, dependentes do ciclo político, sem articulação entre educação, ciência, propriedade industrial, mercado de trabalho, financiamento e competitividade. Esta ausência de estratégia nunca é neutra: as mulheres são sempre as primeiras a ser deixadas para trás, sobretudo onde mais importa — na liderança.

Portugal é um país onde as mulheres chegam ao ensino superior, mas não chegam aos lugares onde se decide. As lideranças empresariais, tecnológicas e públicas continuam a reproduzir modelos antigos, pouco diversos e pouco representativos. Isto tem consequências diretas na inovação: equipas homogéneas produzem soluções menos criativas, menos competitivas e menos robustas. Quando as mulheres não chegam à liderança, o país perde visão estratégica, capacidade de gestão e metade da sua força qualificada.

A desigualdade reflete-se também na remuneração. A persistência do gap salarial, a penalização da maternidade, a falta de progressão e a ausência de mecanismos de transparência são sinais de um Estado que não assume as suas responsabilidades. Uma economia que paga menos às mulheres não é apenas injusta — é ineficiente. Talento mal pago é talento perdido, e talento perdido é inovação comprometida.

O empreendedorismo feminino enfrenta barreiras adicionais: menor acesso a financiamento, redes, investidores e programas de aceleração. É por isso que o Estado — central e local — deveria assumir um papel ativo na criação de incentivos fiscais, linhas de crédito dedicadas, apoios à propriedade industrial e programas que promovam liderança e empreendedorismo feminino. Não por benevolência, mas por estratégia económica.

É impossível falar de inovação enquanto as mulheres continuam afastadas dos sectores de maior valor — tecnologia, inteligência artificial, propriedade intelectual, investigação aplicada e liderança de centros de inovação. Este afastamento não resulta de escolhas individuais: nasce de barreiras institucionais, ausência de redes, falta de financiamento e políticas públicas que não integram a igualdade como critério de investimento. A União Europeia, apesar do discurso progressista, falha quando não impõe métricas vinculativas de participação feminina nos programas de inovação. Sem indicadores obrigatórios, ficamos com políticas bonitas que não mudam nada.

A consequência é evidente: inovamos menos porque incluímos menos mulheres onde se decide. Perdemos competitividade porque desperdiçamos talento. Perdemos patentes porque não promovemos o acesso das mulheres à proteção da propriedade industrial. Perdemos capacidade científica porque investigadoras e empreendedoras continuam a enfrentar obstáculos silenciosos. E perdemos futuro porque tratamos a igualdade como um capítulo final de relatórios, em vez de a colocarmos no início de qualquer política pública.

A inovação não acontece por decreto. Acontece quando os Estados transformam a igualdade em regra; quando percebem que diversidade não é ideologia, é eficiência; quando entendem que proteger e promover o talento feminino não é um gesto simbólico — é uma estratégia económica. Portugal não precisa de mais discursos sobre inovação: precisa de coragem política para admitir que falha, todos os dias, ao desperdiçar a criatividade, a inteligência e a liderança das mulheres que formam, investigam, empreendem e inventam neste país.

Portugal não terá futuro económico se continuar a trabalhar com metade da sua capacidade criativa. A União Europeia não será competitiva enquanto produzir políticas de igualdade sem mecanismos obrigatórios de execução. A inovação só existe quando é inclusiva. O desenvolvimento só acontece quando o talento feminino deixa de ser invisível.

Não há inovação sem mulheres.

Não há eficiência sem igualdade.

E não há futuro para um país que insiste em ignorar isto.