A guerra na Ucrânia não trouxe novidade doutrinária. Trouxe urgência e cobrou a preço de sangue o que os manuais já diziam: a defesa antiaérea é a espinha dorsal da sobrevivência das forças terrestres e da protecção do território. O que tornou essa lição incontornável não foi o míssil balístico nem o caça de quinta geração. Foi o drone.
Portugal protege o seu espaço aéreo com aviões de combate da Força Aérea e com um número residual de sistemas portáteis Stinger do Exército. O primeiro instrumento foi concebido para combater ameaças simétricas no espaço aéreo convencional. O segundo tem um alcance efectivo de três a cinco quilómetros e existe em quantidade que, em qualquer avaliação honesta, não chega para cobrir um exercício de fogos em Santa Margarida, quanto mais um território com dois arquipélagos atlânticos. Entre estes dois extremos existe uma lacuna. É nessa lacuna que reside a ameaça real dos próximos anos.
O Exército está a colmatar parte dessa lacuna com inteligência. O programa de aquisição em curso, que o actual ciclo de governo teve o mérito de retirar das gavetas do planeamento, inclui os sistemas Rapid Ranger, o Skyranger, que conjuga canhão e míssil numa plataforma com detecção alargada, e os radares GM-200, com um alcance de vigilância de 250 quilómetros. A lógica é primariamente militar: proteger as forças do Corpo de Batalha no teatro de operações. Mas estes sistemas têm uma dupla vocação operacional, e ignorá-la seria um erro de planeamento. O mesmo Skyranger que protege uma brigada em manobra pode assegurar uma cobertura mínima sobre infraestruturas críticas no território nacional. A mesma arquitectura de comando e controlo que coordena os meios no campo de batalha pode integrar a defesa de pontos e áreas sensíveis, incluindo os arquipélagos, onde os canhões bitubo de 20 mm, com alcance de 1500 metros, são, na prática, a última linha de defesa de posições de relevância estratégica atlântica.
A continuidade desta capacidade encontra no Exército o seu principal depositário institucional, que dispõe de escola e experiência reconhecidas na protecção antiaérea de pontos e áreas sensíveis. Não é uma questão de disputa entre ramos; é uma questão de racionalidade. A Marinha pode e deve contribuir com capacidades complementares de intercepção, num modelo conjunto que a complexidade da ameaça actual exige. O que não pode subsistir é a ficção de que a defesa aérea nacional se resolve com caças e Stingers.
No Campo Militar de Santa Margarida, o Exército testou pela primeira vez com fogo real uma “loitering munition”, também designada munição vagante ou, com menos eufemismo, drone suicida. O sistema em causa, o HERO 30 da empresa israelita UVision, operado pelo Regimento de Artilharia n.º 5 de Vendas Novas, tem um alcance de 20 quilómetros e uma autonomia de 30 minutos. O exercício Strong Impact 2026 reuniu 417 militares portugueses, espanhóis e franceses, com observadores romenos. O Chefe do Estado-Maior do Exército, general Eduardo Mendes Ferrão, declarou que Portugal está entre os primeiros países da NATO a adquirir este tipo de capacidade.
Mais do que um dado técnico, esta evolução tem implicações doutrinárias claras. O Exército está a adquirir a capacidade de observar, decidir e atacar com precisão, reduzindo o risco de danos colaterais, num paradigma que a guerra na Ucrânia tornou central. Mas há uma segunda leitura, de natureza defensiva. Quem desenvolve e opera drones de ataque compreende, melhor do que ninguém, como os interceptar. As unidades especializadas em drones e contra-drones anunciadas pelo CEME não são um adorno orgânico. São a resposta institucional a uma evidência operacional: a defesa antiaérea do século XXI começa ao nível do solo, com sistemas de curto e muito curto alcance capazes de neutralizar engenhos baratos antes que estes destruam alvos caros.
Aqui, a equação financeira impõe uma advertência incontornável. Um Shahed iraniano custa entre 20 e 50 mil dólares. Um míssil Patriot para o abater custa cerca de dois milhões. A aritmética não é sustentável. A resposta não está em abdicar dos sistemas de camada alta, que permanecem indispensáveis contra ameaças balísticas e de cruzeiro de longo alcance, e cuja ausência em Portugal continua a ser uma lacuna grave. Está em construir uma arquitectura em camadas, onde cada ameaça é enfrentada com o meio mais eficiente e proporcional disponível: canhão contra drone barato, míssil de curto alcance contra drone de médio alcance, sistemas de camada alta contra ameaças balísticas.
Portugal tem a primeira camada em aquisição e a segunda em desenvolvimento. A terceira não existe, não está em aquisição e, ao ritmo actual, não estará disponível quando for necessária.
Esta assimetria torna-se particularmente evidente nos Açores. Pela sua posição geoestratégica, o arquipélago não é periferia: é nó central nas linhas de comunicação transatlânticas e plataforma crítica para projecção e apoio logístico da NATO. No entanto, é também o ponto onde a defesa antiaérea nacional praticamente não existe como sistema integrado. Não há camadas, não há redundância, não há massa crítica de meios. Há, na prática, um vazio operacional. A experiência de outros aliados com territórios ultraperiféricos de elevado valor estratégico, onde a distância, durante demasiado tempo, foi confundida com protecção, oferece uma advertência útil. Num cenário de crise, essa ausência não seria apenas uma vulnerabilidade local; seria uma fragilidade aliada.
O Exército português está a preparar o futuro, como o seu Chefe declarou em Santa Margarida. O problema não é o passo em curso. É o vazio que lhe sucede.