Em um mundo onde alianças se tornam instrumentos de pressão, a verdadeira questão já não é lealdade — mas soberania.
Durante décadas, muitos países estruturaram sua política externa sobre um pressuposto que hoje se revela cada vez mais frágil: o de que os Estados Unidos eram um parceiro exigente, por vezes unilateral, mas essencialmente previsível. Esse pressuposto está a ruir já há algumas décadas. O que antes se apresentava como liderança tem assumido, com frequência crescente, a forma de imposição, externalização de custos e instrumentalização de aliados.
A crise envolvendo o Irão oferece uma ilustração particularmente clara dessa transformação. Ao pressionar países europeus a se engajarem em um conflito que não decorre de um ataque direto, mas de uma escolha estratégica de Washington – e que se assemelha mais a uma Cruzada –, Donald Trump tensiona os próprios fundamentos da NATO. A aliança foi concebida como um pacto de defesa coletiva — não como um mecanismo de adesão automática a guerras de conveniência. Ainda assim, a resposta europeia permanece hesitante. E essa hesitação não é fruto de prudência estratégica, mas de constrangimento estrutural.
Ao longo de décadas, a Europa habituou-se a terceirizar sua segurança. A presença de bases militares americanas em seu território foi naturalizada como garantia de estabilidade. Contudo, quando essa presença se converte em condicionamento permanente da autonomia decisória, o que se observa não é proteção, mas dependência institucionalizada. A soberania, nesse contexto, não desaparece — ela é, silenciosamente, esvaziada.
É precisamente aqui que emerge a questão central do nosso tempo — uma pergunta que transcende a conjuntura e nos obriga a pensar em termos mais amplos: por que a China não acredita em aliados?
A resposta não reside apenas na estratégia contemporânea, mas em uma tradição mais longa de pensamento. A cultura política chinesa, moldada por séculos de instabilidade e recomposição de poder, desenvolveu uma visão relacional das relações internacionais. Em vez de alianças rígidas, privilegia parcerias flexíveis; em vez de compromissos automáticos, favorece equilíbrios dinâmicos. Não se trata de recusa à cooperação, mas de uma compreensão estrutural: alianças, ao mesmo tempo que protegem, também aprisionam.
A experiência europeia contemporânea parece confirmar essa intuição. Ao aceitar, por décadas, a presença militar estrangeira como garantia de segurança, muitos Estados acabaram por internalizar limitações à sua própria autonomia estratégica. A capacidade de dizer “não” tornou-se progressivamente mais restrita — não por ausência de vontade, mas por ausência de margem.
É nesse contexto que o conceito de de-risking adquire relevância geopolítica. Reduzir riscos em relação aos Estados Unidos não significa romper com Washington, tampouco aderir a qualquer forma de antagonismo simplista. Significa, antes, restaurar a capacidade de decisão. Implica diversificar parcerias estratégicas, reconstruir capacidades industriais e tecnológicas, reduzir vulnerabilidades estruturais e, sobretudo, abandonar a ilusão confortável de que soberania delegada continua sendo soberania.
Nenhum Estado pode pretender-se verdadeiramente livre se suas decisões fundamentais dependem do calendário político de outra nação, das prioridades estratégicas de terceiros ou de conflitos que não escolheu travar. A lição que emerge, ainda que incómoda, é inequívoca: alianças são instrumentos, não substitutos da vontade nacional.
No mundo que se desenha, a autonomia deixará de ser um atributo implícito e passará a ser uma conquista deliberada. E talvez a China, ao recusar a lógica das alianças permanentes, não esteja rejeitando o sistema — mas antecipando sua transformação. A pergunta, portanto, já não é apenas porque a China não acredita em aliados. A pergunta que começa a se impor, com crescente urgência, é outra: até quando os demais continuarão acreditando?