Depois da pressão dos ataques iranianos a infraestruturas energéticas sauditas e dos comentários do presidente norte-americano Donald Trump – que se mostrou admirado por a petromonarquia não colocar o seu enorme contingente de armas a responder a esse ataques –, a Arábia Saudita advertiu o Irão de que pode avançar para uma resposta militar.
“O reino e os seus parceiros possuem capacidades significativas e a paciência que temos demonstrado não é ilimitada”, afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros saudita, Faisal bin Farhan, citado pelas agências internacionais. O ministro não quis comprometer-se com um prazo para que a paciência acabe mesmo por esgotar-se: “poderá ser um dia, dois dias ou uma semana, não o direi”, afirmou, depois de um encontro em Riad, com outros 10 países para abordar a situação.
O chefe da diplomacia saudita lamentou que “a pouca confiança” construída com o Irão após o reatamento dos laços diplomáticos em 2023, num acordo mediado pela China, tenha sido “completamente destruída”. Esse acordo nunca chegou a ser consolidado, apesar de Ebrahim Raisi, então presidente iraniano (morto num acidente aéreo em maio do ano seguinte), ter pisado solo saudita em novembro de 2023, quando foi a Riad participar numa cimeira conjunta da Liga Árabe e da Organização de Cooperação Islâmica sobre a guerra em Gaza. Mas o certo é que, do outro lado, a pressão norte-americana para que os sauditas subscrevessem um Acordo de Abraão com Israel (o que nunca aconteceu) impunha uma escolha que os sauditas nunca efetivaram sem sombra de dúvidas.
“O Irão equivoca-se se acredita que os Estados do Golfo são incapazes de responder”, advertiu o ministro, apelando a Teerão para que reconsidere as ações em resposta à ofensiva dos Estados Unidos e de Israel.
O Ministério da Defesa da Arábia Saudita confirmou esta quinta-feira um ataque de drones à refinaria de petróleo SAMREF, em Yanbu, nas margens do Mar Vermelho. A refinaria tem capacidade de processamento de mais de 400 mil barris de petróleo por dia e resulta de uma parceria entre a Saudi Aramco – a empresa estatal do setor – e a norte-americana ExxonMobil, herdeira da ‘velha’ Standard Oil dos Rockefeller. É um dos principais complexos de refinação do país, com uma infraestrutura de especial relevância, por ser uma alternativa à exportação de petróleo pelo Estreito de Ormuz, praticamente bloqueado atualmente pelo Irão. Yanbu recebe o petróleo transportado do Golfo, no leste da Arábia Saudita, por meio do oleoduto Petroline, que percorre mais de mil km.
Além do ataque à refinaria de Yanbu, o Ministério da Defesa saudita anunciou a destruição, em poucas horas, de pelo menos de 20 drones, principalmente na zona oriental do país e nos arredores da capital, Riad.
Qatar volta a ser atacado
Também o Qatar está a sofrer violentamente a irá dos iranianos. Os ataques interromperam pelo menos 17% da capacidade de exportação de gás natural liquefeito (GNL), causando uma perda estimada de em 20 mil milhões de dólares em receitas anuais e ameaçando o fornecimento à Europa e à Ásia, disse o CEO da QatarEnergy à agência Reuters. Saad al-Kaabi afirmou que duas das 14 unidades de liquefação de GNL e uma das suas duas instalações de conversão de gás em líquidos (GTL) foram danificadas nos ataques. As reparações, disse ainda, deixarão inoperacional a infraestrutura que produzia 12,8 milhões de toneladas de GNL por ano durante um período de três a cinco anos.
“Nunca imaginei que o Qatar e a região sofreriam um ataque como este, vindo de um país muçulmano”, disse Kaabi. A QatarEnergy, também uma empresa estatal, poderá ter que declarar força maior para deixar de cumprir contratos de longo prazo, com duração de até cinco anos, para o fornecimento de GNL destinado à Itália, Bélgica, Coreia do Sul e China. A ExxonMobil (que surge repetidamente na região), é parceira nas instalações de GNL danificadas: detém uma participação de 34% na unidade de GNL S4 e de 30% na unidade S6, disse Kaabi.