O antigo ministro da Economia António Costa Silva considera, em entrevista à Lusa, que os EUA estão numa luta titânica com a China na energia, mas Pequim poderá colmatar a ausência de petróleo venezuelano e iraniano com a Rússia.
“Os EUA estão com a China numa luta titânica, não é só a luta geopolítica, a competição entre ambos, as esferas de influência, o controlo dos recursos minerais estratégicos como as terras raras, tudo isso que se discute, mas há também aqui uma luta na área da energia, a energia está umbilicalmente ligada à geopolítica mundial”, refere aquele que é considerado um dos maiores especialistas em energia em Portugal.
Aliás, “estes dois episódios, quer na Venezuela, quer na intervenção no Irão, podem configurar-se a esse nível [luta]”, prossegue António Costa Silva.
Os Estados Unidos e Israel lançaram a 28 de fevereiro um ataque militar contra o Irão, tendo matado durante a ofensiva o ‘ayatollah’ Ali Khamenei, líder supremo do país desde 1989.
“Temos na luta pela transição energética no mundo: um conflito entre aquilo que são os petroestados, que são os Estados que produzem petróleo e gás e que até aqui comandavam a ordem energética mundial, e do outro lado (…) estão os eletroestados, aqueles que apostaram na eletricidade”, enquadra o gestor e antigo governante.
Atualmente, o maior “super petroestado do mundo” são os EUA, com a “revolução do ‘shale oil’ e do ‘shale gas’ [de xisto], eles são o maior produtor mundial de petróleo e de gás”.
O Presidente norte-americano, Donald Trump, “é a favor dos combustíveis fósseis, o que é absolutamente danoso, por causa da deterioração que se está a verificar no sistema climático internacional”, aponta.
“Andamos distraídos com todas estas coisas, mas a maior ameaça que pende hoje sobre a espécie humana é a ameaça climática, a transformação do sistema climático no planeta, que pode ser daqui a algumas décadas realmente muito, muito perigoso para todos”, enfatiza.
Portanto, Trump “apostou de forma errada no reforço dos combustíveis fósseis e retirou a China da possibilidade de ser abastecida através da Venezuela e retirou também a China da possibilidade agora de ser abastecida através do Irão”.
Contudo, “uma vez mais, eu penso que o Presidente norte-americano e esta Administração são muito superficiais, muito erráticos, muito pouco profundos”, exemplificando a área da diplomacia, onde os norte-americanos sempre tiveram “grandes diplomatas”.
Do outro lado do mundo, está a China, “que é nesta altura o maior eletroestado do mundo”, que está “a apostar na eletrificação do país”, afirma, acrescentando que a China “já produz um terço da eletricidade mundial e está a apostar em todas as linhas industriais ligadas às energias renováveis e à eletrificação da economia”.
Só em 2024, “dos 17 milhões de carros elétricos que foram vendidos no mundo, dois terços foram fabricados na China”, de todos os painéis fotovoltaicos e solares, cerca de 90% foram fabricados na China, e das baterias, 80%, ou seja, Pequim domina estas fileiras, detalha.
Portanto, “é muito possível que a China, nesta altura, que apostou muito na eletrificação da sua frota, do sistema ferroviário e de tudo o resto, tenha a possibilidade de colmatar a falha do petróleo da Venezuela e do Irão com o reforço do acordo com a Rússia”, salienta o antigo governante.
Aliás, O Presidente russo, já anunciou que está a estudar para se retirar do mercado europeu para abastecer, sobretudo, China, Índia e os países asiáticos.
“Temos aqui uma fratura na geoeconomia mundial, mas, simultaneamente, a China vai aproveitar isto para acelerar a transição energética e eletrificar a sua economia”, o que vai ser “benéfico” para o planeta, enfatiza.
Para Costa Silva, uma das heranças mais negativas que Trump vai deixar é “o seu negacionismo climático” e aquilo que fez para acelerar a destruição do sistema climático na Terra.
“Não podemos esquecer [que a China] que é um regime totalitário e que, no fundo, está a reinventar o capitalismo do Estado chinês para o alinhar com a transição energética e eletrificação da economia” e, nesta luta titânica, quem vai dominar a ordem mundial, questiona.
“Muito provavelmente, como estamos a verificar, os combustíveis fósseis vão tender a perder a sua dominância. Ainda dominam hoje, é inegável, porque 80% da matriz energética mundial é petróleo, gás e carvão, mas nas próximas décadas esta transição vai se acelerar”, tal como indica a AIE, remata.