António Vitorino, Presidente do Conselho Nacional para as Migrações e Asilo, advogado e ex-ministro socialista, foi o convidado da conferência do Santander a propósito da apresentação do relatório “Outlook de mercados 2026”. Para descrever o momento geopolítico que vivemos escolheu a expressão “impermanência “, explicando que se refere ao estado em que “os elementos essenciais de referência deixam de estar onde nós sempre os conhecemos”. Na sua opinião, a expressão incerteza “não é totalmente ajustada aos tempos que vivemos”. Defende que o fator detonador da “impermanência” é a “alteração estrutural que está em curso nos EUA e que não vai desaparecer porque corresponde a um movimento telúrico mais profundo.” O político explica que estamos a assistir a “uma revolução iliberal” e que “tem como objetivo construir um modelo alternativo às democracias liberais.” Diz mesmo que “estamos a assistir a uma deriva iliberal nos EUA.”
No entanto avisa que “convém não confundir o estilo errático de Trump, que é um estilo pessoal, com falta de estratégia”. O especialista em geopolítica diz mesmo que “é serio e não é ocasional. Há um projeto por trás. É o chamado Projeto 2025, cuja base orientadora foi feita pela Heritage Foundation e pelo America First Policy Institute, de Stephen Miller”. Esse plano estabelece objetivos tais como restaurar a família como centro da vida americana; colocar toda a burocracia federal, incluindo órgãos independentes como o Departamento de Justiça (DOJ) e o FBI, sob o controlo direto do Presidente; e combater a “Agenda Woke”. Propõe ainda a desregulamentação; reduzir drasticamente normas ambientais para favorecer combustíveis fósseis; restringir a imigração e avançar com a deportação em massa de imigrantes ilegais. Mais. Sugere cortes de impostos e o desmantelamento de Agências Federais.
Por outro lado, Vitorino alerta que “a sociedade americana, como muitas das sociedades ocidentais, é hoje uma sociedade hiper polarizada”, e alerta que “é bom que todos nós tenhamos consciência que quando apostamos na hiper polarização, estamos a criar uma cultura da violência”.
A conversa chegou também à China – que Vitorino conhece bem, desde os tempos em que trabalhou em Macau – para comentar os 50 generais da Comissão Militar Central substituídos nos últimos dois anos. Vitoriono lembrou que “as forças armadas chinesas são um potentado industrial e empresarial”. Mas, e apesar de “a cortina de bambu ser mais impenetrável do que a cortina de ferro”, arrisca a associar essas substituições ao facto de se tratar de um grupo que desejava uma ação mais musculada em Taiwan. Explica mesmo que o regime chinês “é um regime nacionalista, mais do que um regime comunista” (bem como o russo). Para dizer que, “no regime nacionalista chinês, também há os radicais e os moderados (Xi Jinping). Tal como na Rússia também há os nacionalistas russos que acham que Putin é muito suave no ataque à Ucrânia”, disse.
Sobre a guerra da Rússia e Ucrânia concorda que “a questão territorial é a questão central e a forma ‘como que se resolve’ é particularmente importante para o presidente Zelensky, porque ele tem que vender a solução internamente e à opinião pública”.
António Vitorino confessou que houve dois líderes que o impressionaram “pelo controle dos detalhes”, um foi Zelensky. “Fiquei muito impressionado porque, com ele, eu tive de pedalar, obrigava-me a ir aos detalhes. O outro líder que me impressionou pelo controle dos detalhes foi o Presidente Putin”.
Sobre a possibilidade de a UE acelerar a adesão da Ucrânia, Vitorino diz que “a adesão só pode iniciar-se formalmente se houver unanimidade dos Estados-membros, o que é difícil. Temos de esperar pelo menos até abril para ver o que é que acontece em Budapeste. Mas Orbán não aceita e não aceitará a adesão da Ucrânia à UE”. Depois, diz, “a adesão da Ucrânia tem um impacto económico significativo na UE. Estamos a falar de um país que, do ponto de vista agrícola, é três vezes a Turquia, pelo que é uma ameaça à política agrícola comum. É por isso que está a ser estudada a hipótese de uma espécie de adesão setorial em que a Ucrânia teria representação nas correspondentes instâncias europeias”.
Já sobre o tema do conflito com o Irão, acredita que haverá uma mudança de regime. “O Irão tem uma dualidade de forças de segurança: as forças armadas e a guarda republicana. A prazo, isso não corre bem”, diz acrescentando que é um país de virtudes públicas e vícios privados.
Olhando para a relação dos EUA com a NATO, afirma que “a relação transatlântica continua a ser um elemento essencial para os Estados Unidos, e mesmo do ponto de vista da opinião pública continua a ter um apoio maioritário”, o que, aliás, explica o “travão” à integração da Gronelândia. Defende também que o projeto de autonomia estratégica em matéria de defesa na Europa é um projeto para 10 anos. Diz que a Europa precisa de “keep the Americans in”, sem que isso afete a sua capacidade de se afirmar progressivamente de forma autónoma.
Vitorino lembra que há setores essenciais de uma estrutura de defesa que só os americanos podem fornecer e que “há certos equipamentos militares onde a possibilidade e o alcance de os utilizar está dependente de uma decisão em Washington”. Ou seja, em matéria de defesa não há alternativa aos EUA, até porque “não estou a ver a Europa a comprar equipamento militar à China. O que estou a ver é a Europa ser capaz de produzir cá”. Explica ainda que “a maneira de fazer a guerra mudou muito” e que “usar um míssil que custa uns quantos milhões para abater drones que custam 200 dólares é um disparate”. Considera também que a inteligência artificial (IA) vai ter um papel crucial na defesa e na maneira de fazer a guerra. “As empresas de defesa que aplicam IA foram das que mais se destacaram ao longo do último ano, estando na pole position a Tekever, de origem portuguesa”, diz.
Alerta ainda que a China e os EUA dominam a IA e que “a Europa está fora disso, completamente. Está na época medieval.”
Por fim, sobre a resposta da UE ao desafio de Mario Draghi, de criar campeões europeus, Vitorino acredita que vai acontecer se a Europa quiser contar na geoeconomia, mas alerta que “não é propriamente uma boa notícia para um país de pequena ou de média dimensão, como o nosso”.