“Num mundo onde tudo muda à velocidade de um algoritmo, há uma pergunta que se impõe: ainda faz sentido falar de associativismo empresarial?”. A resposta não deixa margem para dúvidas: nunca foi tão necessário.

Vivemos um momento de transformação estrutural, marcado pela digitalização, pela inteligência artificial, pela transição energética e por uma crescente complexidade regulatória, em grande medida impulsionada pelo enquadramento europeu.

Este cenário é hoje agravado por um contexto de significativa instabilidade política e económica, que introduz níveis adicionais de incerteza e imprevisibilidade no ambiente empresarial, dificultando a tomada de decisão e a definição de estratégias de médio e longo prazo.

Neste contexto, o verdadeiro desafio das empresas já não é apenas competir – é compreender, antecipar e adaptar-se. E é aqui que importa ser claro: o maior risco não é a concorrência. É ficar para trás.

Durante décadas, o associativismo empresarial foi percecionado sobretudo como um instrumento de representação institucional. Esse papel continua a ser relevante, mas tornou-se claramente insuficiente face à complexidade do presente. O que hoje se exige é um associativismo diferente. Mais próximo. Mais técnico. Mais estratégico.

As associações empresariais têm de assumir-se como verdadeiros parceiros das empresas, desempenhando um papel ativo na redução da complexidade, na capacitação e na criação de condições para uma adaptação mais rápida e sustentada.

Desde logo, ao ajudar as empresas a navegar a crescente complexidade regulatória e tecnológica, transformando-a em informação clara e útil, num contexto de rápida evolução da legislação e da inovação – um apoio crítico, sobretudo para as pequenas e médias empresas.

Paralelamente, ao promoverem a qualificação e a atualização de competências. Num mercado em rápida transformação, a formação deixou de ser uma vantagem competitiva para se afirmar como uma verdadeira condição de sobrevivência.

Acresce ainda o papel de assegurar uma representação qualificada junto dos decisores políticos, contribuindo para políticas públicas mais informadas, equilibradas e alinhadas com a realidade económica. E, talvez mais importante, ao criarem verdadeiros ecossistemas colaborativos, capazes de ligar empresas, conhecimento e inovação.

O setor automóvel ilustra bem esta realidade. Enfrenta simultaneamente uma transição energética profunda, uma revolução tecnológica e uma pressão regulatória significativa. Neste contexto, associações como a ANECRA têm vindo a evoluir de forma consistente, aproximando-se das necessidades reais das empresas e reforçando o seu papel no apoio técnico, na formação e na produção de conhecimento. Hoje, já não basta representar é preciso capacitar, apoiar, influenciar e liderar – e é precisamente essa evolução que começa a fazer a diferença no setor automóvel em Portugal.

Num país como Portugal, onde o tecido empresarial é maioritariamente composto por PME, a capacidade de resposta coletiva torna-se um fator decisivo. A ideia de que cada empresa pode, isoladamente, enfrentar os desafios do futuro é, hoje, uma ilusão.

O futuro da competitividade não será das empresas que tentarem fazer tudo sozinhas, mas das que melhor souberem integrar redes, partilhar conhecimento e agir de forma coordenada. Como diz um conhecido provérbio africano: “Se quer ir rápido, vá sozinho. Se quer ir longe, vá em grupo.” Num mundo onde a mudança é permanente, talvez nunca esta ideia tenha sido tão atual.