O concurso para a barragem de Girabolhos, no distrito de Viseu, vai ser lançado no final de março, anunciou hoje o ministério do Ambiente e da Energia.

O projeto é “estruturante para o controlo de cheias no Mondego”, assumindo “particular relevância perante os acontecimentos na bacia do Mondego”. Além, claro, de servir para reforçar o abastecimento de água e a produção de energia hídrica renovável.

O procedimento concursal para a construção e exploração do Empreendimento de Fins Múltiplos de Girabolhos (EFMG) será lançado pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA).

“O empreendimento de Girabolhos é uma infraestrutura estratégica para reforçar a segurança hídrica do País, proteger as populações do vale do Mondego e aumentar a capacidade nacional de produção de energia renovável. Estamos a dar um passo firme na concretização de uma política de gestão da água mais integrada, mais resiliente e mais preparada, para lidar com fenómenos climáticos extremos, tais como os que o país tem enfrentado nas últimas semanas”, disse a ministra Maria da Graça Carvalho.

Alerta para “risco significativo” de rutura de diques no Mondego

O anúncio tem lugar no mesmo dia em que a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) avisou hoje que existe um “risco significativo” de rutura de um dique no rio Mondego.

Um total de três mil pessoas foram já evacuadas em Coimbra, nas margens esquerda e direita do rio.

“No rio Mondego, há um risco significativo de poder existir alguma rutura nos diques”, disse hoje Mário Silvestre, Comandante Nacional da Proteção Civil.

Já foi realizada uma “evacuação preventiva”, incluindo “pessoas com dificuldade de mobilidade” e lares de terceira idade.

O comandante considera que esta é uma das “situações mais complexas neste momento” perante o “potencial de rompimento de um desses diques”, havendo 30 km do rio Mondego com diques, entre Coimbra e a Figueira da Foz.

Projeto da barragem de Girabolhos previa gigabateria, mais água e estabilização do Mondego

Em março de 2025, o Governo anunciou que iria lançar um estudo para avaliar a viabilidade da construção da barragem de Fins Múltiplos de Girabolhos no distrito de Viseu.

Com um orçamento previsto de 300 milhões de euros, tem um prazo de execução de 2026-2037, com a fonte do financiamento ainda por determinar.

O projeto faz parte da Estratégia Nacional de Gestão da Água – “Água que Une” que prevê cinco mil milhões de euros de investimento até 2030 para aumentar em 30% a água para o regadio e para aumentar a resiliência hídrica do país.

Mas o projeto de Girabolhos tem uma longa história. O Governo de José Sócrates lançou o Programa Nacional de Barragens de Elevado Potencial Hidroelétrico (PNBEPH) no final de 2007, e esta barragem ficou entre as 10 selecionadas.

A Endesa ganhou o concurso para construir esta barragem e chegou a obter luz verde, sujeito ao cumprimento de condições, por parte da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) em 2010 para avançar com a sua construção.

O Aproveitamento Hidroeléctrico de Girabolhos tinha uma potência instalada de 360 megawatts (MW) e um investimento previsto, à altura, de mais de 350 milhões de euros.

Este projeto previa a construção de duas barragens – Girabolhos e Bogueira – pois contemplava a tecnologia de bombagem: a água turbinada pela central a montante fica armazenada na albufeira a jusante. Para ser reutilizada, é bombada para a primeira central para ser turbinada novamente.

O Plano Nacional de Barragens previa a construção de 10 barragens – Almourol, Alvito, Daivões, Foz Tua, Fridão, Girabolhos, Gouvães, Padroselos, Pinhosão e Alto Tâmega (Vidago) -, mas os projetos borregaram durante a intervenção da troika em Portugal.

Mas do plano inicial foram construídas apenas quatro barragens: Foz do Tua, pela EDP; e Daivões, Gouvães e Alto Tâmega pela Iberdrola.

Em 2016, o acordo que deu origem à ‘geringonça’ previa a avaliação do Plano Nacional de Barragens. Resultado: Alvito e Padroselos (chumbo ambiental) foram excluídas; a Endesa recuou no projeto de Girabolhos; projeto do Fridão foi adiado por três anos e depois nasceu uma guerra entre o Governo de António Costa e a EDP: o ministro do Ambiente João Pedro Matos Fernandes alegou que a elétrica não estava interessada em construir, defendendo que o Estado não teria de devolver as contrapartidas já pagas. A EDP rejeitou estar interessada e avançou para tribunal para receber o dinheiro de volta. Depois de uma longa batalha judicial, o Estado devolveu 218 milhões de euros à EDP em 2024.

A barragem de Girabolhos é um projeto “interessante”, disse ao JE Nuno Ribeiro da Silva em março de 2025 que liderava a Endesa durante os processos de atribuição da concessão e durante o cancelamento.

“É uma barragem de bombagem, permite funcionar como uma bateria, acumulando energia para usar nos períodos em que não conseguimos suprir necessidades de geração de eletricidade com fontes renováveis, como solar ou vento. As barragens de bombagem são preciosas pois funcionam como baterias, são a forma mais barata de acumular energia. É extremamente oportuno e interessante”, afirmou o gestor em conversa com o JE na altura.

Mas o projeto inicial de Girabolhos não serviria somente para produzir eletricidade, tendo fins múltiplos. “Iria contribuir para alguma regularização do rio Mondego que só tem a barragem da Agueira. Chamam ao rio o “bazófias”: de vez em quando há cheias no baixo Mondego, e depois tem períodos com pouco caudal. A regularização do rio é uma mais-valia”.

“Os concelhos de Seia, Mangualde, Nelas e Gouveia, toda a zona sul do distrito de Viseu sempre teve problemas de abastecimento de água. Poder ter ali uma reserva de água é uma ajuda para regularizar o abastecimento de água, mesmo para usos primários, abastecimento às populações. Tem muitas virtudes, faz todo o sentido naquele local”, acrescentou.

Nuno Ribeiro da Silva – que liderou a Endesa Portugal durante 17 anos até 2023 – apontou que o projeto está “estudadíssimo” e que até começaram a ser feitos “alguns trabalhos iniciais”.

Mas com a ‘geringonça’ a “rever as condições do que foi a concurso ganho pela Endesa”, a empresa “não podia estar pendurada na reabertura do dossier e continuar a gastar dinheiro à tripa-forra”, com o projeto então já orçamentado em “500/600 milhões” de euros.

Houve irresponsabilidade na gestão deste projeto pela geringonça? “Absoluta. Foi discutido e negociado e ficou no contrato os termos de tudo aquilo que se ia processar. Depois, de repente, por causa das negociações da geringonça, o Governo reabre a negociação. Já tínhamos o projeto, já tínhamos feito as expropriações todas. O estaleiro montado, acordos com as 4 câmaras. Afundámos uma data de dinheiro”, entre 60-70 milhões de euros.

“Faz todo o sentido” pegar no projeto. “Cria uma albufeira valente. E ali não há nada de inundações de aldeias ou igrejas. Além do mais, não são terras com qualquer valor especial, são terras abandonadas, mata degradada ou ardida”.

“Estávamos já no terreno. Tínhamos licença ambiental. Foi ciclópico. A maior parte das propriedades eram pequenas. Tínhamos já as licenças e chegaram e resolveram fazer truques”, considerando que houve “oportunismo” na forma como o processo foi gerido.