Os Estados Unidos da América têm uma propensão grande para interferir internacionalmente na promoção da democracia (ou de interesses próprios objetivos), do liberalismo e da economia de mercado (dependendo do enquadramento). Era considerada uma obrigação moral e uma necessidade para o desenvolvimento do país, que considerava só poder vingar num mundo dominado pela escolha popular e não por autocracias. Não é de agora, pois foi assim que Woodrow Wilson justificou a entrada na I Guerra Mundial. “O mundo precisa de se tornar um lugar seguro para a democracia”, afirmou aos congressistas, em 1917, em defesa da declaração de guerra à Alemanha.

“Somos participantes, quer queiramos quer não, da vida do mundo”, disse, já depois da guerra, em defesa da criação da Sociedade das Nações, de vida curta. Outros presidentes norte-americanos seguiram esta doutrina: John F. Kennedy, Ronald Reagan ou George W. Bush, por exemplo. Só que nem sempre derrubar regimes à espera de que disso resulte uma regeneração idílica, estruturada na forma ocidental, surte o efeito desejado. Quase nunca acontece. Exemplos? Afeganistão, Líbia. E isto só desde o início do milénio. E o Iraque, claro. “O estabelecimento de um Iraque livre no coração do Médio Oriente será um ponto de viragem na revolução democrática global”, apregoava Bush (filho), em 2003. Cerca de oito mil norte-americanos mortos e 2,9 biliões (sim, são mesmo biliões) de dólares gastos depois, passando pelo contributo decisivo para a emergência do ISIS, podemos concluir que foi uma aposta perdida. Pior ainda para os iraquianos, reféns da desordem.

Mais exemplos? O resultado das oito celebradas primaveras árabes foram três países fragmentados e mergulhados em longas guerras civis e dois regressos a regimes autoritários. Não se pode dizer que tenham sido um sucesso.

Nestes dias, depois da operação na Venezuela e antes que se olhe mais diretamente para Cuba, o foco é o Irão. Era uma guerra adiada, já se sabia. Estava escrita, mas agora concretiza-se com uma intervenção militar alargada, justificada pela insistência do herdeiro do império persa na promoção do terrorismo e pela ameaça sempre crescente para os estados da região. Decapitado o regime, bombardeado o país, Donald Trump apela à população iraniana para que se imponha ao regime dos ayatollahs, na rua, como disse antes, quando havia protestos, que a ajuda ia a caminho. Mas não há alternativas óbvias para gerir uma transição ordenada, nem existem instituições que possam suportar a construção imediata de uma democracia.

Para onde se olha à procura de apoio numa estrutura monolítica de poder? O risco de um futuro falhado é gigante, mais uma vez. E a aprendizagem é nula: só se entra neste tipo de operações quando se sabe como sair delas. A não ser que o objetivo seja, apenas, criar instabilidade e tentar reinar no caos. Mas como qualquer investidor sabe, esse é o pior regime de todos.