O Chega prometeu hoje escrutínio político “implacável” ao novo ministro da Administração Interna, Luís Neves, anunciando que o vai chamar em breve ao parlamento. O partido advertiu que o novo titular da pasta deve alterar o paradigma “cor-de-rosa” que defendeu sobre a criminalidade em Portugal.

Estas posições foram transmitidas pelo antigo ministro Rui Gomes da Silva, na qualidade de membro do “Governo sombra” do Chega, em conferência de imprensa na sede nacional do partido.

Na reação à nomeação de Luís Neves, até agora diretor nacional da Polícia Judiciária (PJ), Rui Gomes da Silva afirmou que o Chega fará “um escrutínio político implacável” e que a bancada parlamentar do partido o convocará em breve para prestar esclarecimentos.

O partido quer saber se o novo ministro mantém a “realidade cor-de-rosa” de que não há aumento da criminalidade grave em Portugal, particularmente a relacionada com o fenómeno da imigração.

Rui Gomes da Silva, acompanhado pelos deputados Marta Silva e Pedro Frazão, considerou que, “após uma série de erros graves do Governo, há finalmente um nome” para a pasta da Administração Interna. O antigo ministro social-democrata recusou-se a classificar se Luís Neves é uma boa escolha do primeiro-ministro, Luís Montenegro, mas sublinhou que o nome vem da área da justiça e que o seu passado como diretor da PJ não conta para as novas funções ministeriais.

“O novo ministro da Administração Interna vai ter muitos dossiês para resolver, que vão exigir muito trabalho – um trabalho que não foi desenvolvido nem tratado pelos últimos responsáveis da pasta”, afirmou, apontando problemas como as carreiras nas forças de segurança, o comando unificado dos bombeiros e a “reorganização da Proteção Civil”.

Rui Gomes da Silva recordou declarações anteriores de Luís Neves sobre criminalidade: “Disse que a criminalidade não estava a aumentar, quando nós sabemos – e é facilmente comparável quando analisamos os números – que os crimes sexuais, a violência, os crimes graves, os crimes com violência, os crimes relacionados com a imigração são realidades que existem. Não são perceções, muito menos são invenções do Chega”.

Em 2023, numa audição parlamentar, Luís Neves negou uma relação direta entre crime e imigração, afirmando que a criminalidade violenta é mais baixa entre imigrantes do que entre nacionais, e criticou as “fake news” que, segundo ele, tentam criar pânico.

O membro do Governo sombra do Chega apelou: “Que o novo titular do Ministério da Administração Interna não se fique pelas perceções, não se fique pela construção de ideias cor-de-rosa que não têm qualquer correspondência com a realidade”.

Luís Neves, diretor nacional da PJ desde 2018, licenciado em Direito, ingressou na polícia judiciária em 1995. A sua carreira esteve sempre ligada à investigação criminal, em áreas como crime violento e organizado, terrorismo, extremismo violento, tráfico de seres humanos e armas. Anteriormente, foi diretor da Unidade Nacional Contra-Terrorismo (UNCT) e da extinta Direção Central de Combate ao Banditismo (DCCB).

O novo ministro substitui Maria Lúcia Amaral, ex-Provedora de Justiça, que se demitiu a 10 de julho, alegando não ter “as condições pessoais e políticas indispensáveis ao exercício do cargo”, demissão aceite pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Até à nomeação de Luís Neves, o primeiro-ministro, Luís Montenegro, acumulou interinamente as funções da Administração Interna.