Paris enfrenta um eixo Berlim-Roma no debate sobre como reativar a economia da União Europeia. É assim que os analistas antecipam – talvez um pouco excessivamente – o que sucederá a partir desta quinta-feira algures num castelo medieval belga, no âmbito de mais uma cimeira informal do bloco. Mas, há de facto vários temas que estão em cima da mesa que separam as capitais das três principais economias do bloco, com Berlim e Roma, lideradas por conservadores e extremistas de direita, a coincidirem na oposição ao centrista Emmanuel Macron. Os eurobonds – um instrumento que estava ‘a hibernar’ desde a pandemia, mas que o presidente francês veio ‘acordar’ esta terça-feira – o acordo comercial com o Mercosul, ou a resposta direta ao bloqueio das empresas, são temas que separam Paris e o novo eixo. E que, dizem os analistas e temem as lideranças da Comissão Europeia e do Conselho Europeu, podem contribuir para aprofundar ainda mais as divisões internas.
Segundo a agência Euronews, Paris fez um movimento de última hora para participar numa reunião informal prévia à cimeira, agendada por Berlim e Roma na manhã desta quinta-feira. A reunião, que agregará entre 10 e 15 Estados-membros e para a qual a França não foi convidada, servirá para coordenar as suas posições antes da reunião dos líderes. O encontro prévio é não apenas muito incomum, como demonstra (ou propicia) algum mal-estar no interior da cimeira.
O desentendimento dá-se um dia depois de Emmanuel Macron ter referido, em entrevista coletiva, os principais pontos de vista de Paris, elaborados no sentido da recuperação económica do bloco. Quando comparado com as declarações de Macron, um documento divulgado nos últimos dias pela Alemanha e Itália, parece a antítese da tese do presidente francês, que eventualmente dificultará uma síntese. São visão muito diferentes para a economia do bloco, referem os analistas.
A cimeira de Alden Biesen, ocorre um ano e meio depois de um relatório histórico de Mario Draghi, ex-governador do Banco Central Europeu, ter alertado para uma perspetiva sombria quanto à economia europeia, a menos que medidas decisivas fossem tomadas para impulsionar a competitividade. Desde a publicação do relatório, em 2024, o cenário geoeconómico global mudou drasticamente, com a pressão das liderantes economias dos Estados Unidos e da China a aumentarem a pressão sobre os 27. Entretanto, quanto ao relatório Draghi, nada aconteceu. Ou quase.
Concretização deficiente
Um ano depois da publicação do relatório – que, recorde-se, foi aplaudido em quase todo o lado – só uma em cada 10 medidas propostas para aumentar a competitividade económica da União Europeia foi adotada (até setembro passado, quando se assinalou um ano desde a publicação do documento).
Mario Draghi estimou em 800 mil milhões de euros as necessidades anuais de investimento adicional na União face aos concorrentes China e Estados Unidos, o equivalente a mais de 4% do PIB comunitário. Para isso, propunha a emissão regular de dívida comum, como aconteceu para fazer face à crise pandémica, um investimento maciço em defesa e uma nova estratégia industrial comunitária.
Segundo dados então divulgados pela organização europeia Conselho Europeu para a Inovação Política (EPIC), do total de 383 recomendações apresentadas, apenas 11,2% (43 medidas) foram totalmente cumpridas. A organização afirmava que a União já tenha implementado 31,4% (77 medidas) das iniciativas defendidas por Mario Draghi, estando o resto em curso (46%, 176 medidas) ou por aplicar (22,7%, 87 medidas).
Num outro instrumento de monitorização de resultados, chamado ‘Draghi tracker’ e assinado pela Iniciativa Europeia Conjunta Disruptiva, afirmava-se que a implementação das principais medidas propostas no relatório Draghi não ia além dos 14%, tendo por base as 20 recomendações mais importantes.
Durante a cimeira, os líderes vão concentrar-se em “fortalecer o Mercado Único, reduzir as barreiras ao crescimento e aprimorar a autonomia estratégica da Europa”, de acordo com a agenda apresentada pela presidência cipriota da União Europeia.
Draghi, juntamente com outro ex-primeiro-ministro italiano, Enrico Letta – que publicou o seu próprio relatório sobre o Mercado Único no mesmo ano – estão presentes na Bélgica.
A desregulamentação da indústria, defendida pelo eixo Berlim-Roma, e os eurobonds, defendidos por Paris, serão por certo os temas mais complexos de debater entre os 27. Em vez de dívida comum – que a Alemanha e os países ‘frugais’ do norte temem ter de pagar – Berlim e Roma sugerem “a criação de uma bolsa de valores pan-europeia, um mercado secundário pan-europeu e uma revisão dos requisitos de capital para empréstimos, sem comprometer a estabilidade financeira”.
Resta ainda a questão do ‘Made in Europe’, ao gosto de França e de vários outros países do bloco, mas que mereceu críticas pouco leves da parte dos países nórdicos e bálticos, e dos Países Baixos. O plano “corre o risco de anular os nossos esforços de simplificação, dificultar o acesso das empresas à tecnologia de ponta, prejudicar o intercâmbio com outros mercados e afastar os investimentos da União”, refere um documento conjunto daqueles países, entretanto divulgado.