Lembra-se de abrir a caixa do correio? Essa ‘coisa’ física com papel dentro? Cartas, contas, postais, folhetos publicitários… O que lhe ocorreria se, um dia, recebesse um postal apenas com uma frase: “Continuo vivo.”? O ponto final servindo de garantia. De afirmação. De prova de vida. José Carlos Santana Pinto, colecionador de arte contemporânea há mais de quatro décadas, nunca recebeu um desses míticos postais de On Kawara, sobrevivente japonês da Segunda Guerra Mundial, americano de adoção, que construiu toda a sua obra como uma homenagem humanista ao tempo de vida coletivo e individual. As centenas de postais e telegramas que enviou a amigos, conhecidos, marchands, galeristas, são testemunhos da sua abordagem da arte, do tempo e do espaço. Ou do espaço no tempo. Uma postura conceptual, reflexo de pensamento, informação pura, onde a emoção é praticamente inexistente. O mínimo para o efeito máximo. “I am still alive”. Statement. Do artista.

Caminhamos em direção à obra FEB.16.1971, da série “Today”, de Kawara. É uma das preferidas de José Carlos Santana Pinto. “É a mais cara que eu tenho na coleção, mas isso não é o mais importante. O que realmente importa é que representa o absoluto da vida. O tempo é o aspeto mais absoluto da vida”, refere assertivamente, interpelando com o olhar. “O tema da morte é algo que me ocupa”, acrescenta, esquivando-se a dar pormenores, para logo apontar a duas peças que ladeiam aquela obra de Kawara. “Apropriações com mais-valia”, chama-lhes. Os autores? Fernanda Fragateiro e Nuno Nunes-Ferreira. Dois artistas portugueses que muito aprecia.” Aliás, este encontro dos três artistas diz muito sobre a essência da sua coleção. E da relação que Santos Pinto tem com ela. “Fico muito contente se um dia o On Kawara chegar a valer um milhão de euros, mas não é para vender”, garante o colecionador. Olhando em torno, diz: “Esta é a minha coleção, faz parte da minha vida. Seria uma pessoa diferente se não gostasse de arte contemporânea.”

Emprestar é partilhar

As viagens frequentes, por razões profissionais, e uma “herança generosa” deram elã ao seu “vício” de colecionar. Ele que, em miúdo, dedicava as suas “economias” à compra de livros. “Quis ter a colecção toda dos “Cinco” e não apenas um dos livros. Depois, aos vinte e poucos anos, numa das idas à Sociedade Nacional de Belas-Artes, em Lisboa – a família fomentava, e apreciava, essas incursões culturais – comprou a sua primeira obra de arte, “um Mário Botas”, diz. Não mais parou e, a dada altura, quando as paredes de casa já não comportavam mais a sua veia colecionista, não deixou de comprar. Tal como nunca deixou de abrir a sua casa a amigos, a curadores e colecionadores portugueses e estrangeiros, nomeadamente no âmbito da ARCOLisboa, cujo Comité de Honra Santana Pinto integra.

Mas tergiversamos. Como o próprio resume, “um colecionador começa quando o que compra já não tem lugar em casa”. Daí aos empréstimos a instituições portuguesas e estrangeiras foi um pequeno passo. “Emprestar é partilhar”. O público, dizemos nós, fica a ganhar. Como agora, com a exposição “Entre a palavra e o silêncio”, no MACAM – Museu de Arte Contemporânea Armando Martins, a convite do museu e com curadoria de Adelaide Ginga. Inaugura-se assim o ciclo de colaborações com colecionadores privados que não dispõem de espaços públicos para mostrar os seus acervos. Com o objetivo de dinamizar novas perspetivas sobre o colecionismo contemporâneo, no âmbito do conceito que está na sua génese, “The House of Collections”.

Medir a temperatura

Um detalhe absolutamente determinante para a identidade desta coleção particular é focar-se apenas em obras de artistas vivos. Uma vez mais, a interpelação, a leitura do tempo em que vivemos. Para o colecionador, a grande narrativa da arte contemporânea faz-se tratando o presente por “tu”. E a mensagem até poderia ser: o indivíduo no tempo é uma data que se perde entre tantas datas. On Kawara intromete-se, de novo, na conversa. Faleceu em 2014. É ele o primeiro artista morto da coleção. A invocação da morte não traz angústia, traz outras referências, como o fatalismo imbuído de religião. “I can’t go on. I’ll go on”, de Alfredo Jaar, que dialoga, por exemplo, com Joana Ramalho, uma das artistas do projeto Manicómio, que dialoga também com Fábio Colaço e a sua crítica contundente: “The world is full of kings and queens, who blind your eyes and steal your dreams”. Ecos do bardo? Hamlet não desdenharia desta farpa, com o beneplácito de Shakespeare, bem entendido.

Entretanto, Santana Pinto chama a atenção para uma obra de Agnès Thurnauer, cuja prática questiona a linguagem, a sua representação e interpretação. Aqui numa provocação à provocação, i.e., apropriando-se da famosa e polémica pintura de Gustave Courbet, “A Origem do Mundo” (1866). A exposição reúne cerca de dez por cento da coleção Santana Pinto. Boltanski, Belén Uriel, Edgar Martins, Hans-Peter Feldman, Pedro Cabrita Reis, Antoni Muntadas, Sara & André, Rui Chafes ou Mónica Bonvicini – que parte de uma obra icónica de Marcel Duchamp para criar uma outra provocação, “Fleurs du Mal” (un couple), ‘derretendo’ vidro de Murano como uma relação que murchou – são apenas alguns dos intervenientes nesta tentativa de medir a temperatura do mundo. “Entre a palavra e o silêncio” funciona como um espelho, onde tanto podemos ver refletidas as angústias que nos ocupam a mente, como nos suscitam pensamentos amiúde calados dentro de nós. Consciência social? Nunca foi tão pertinente, dir-se-á em todas as épocas. Tomemos então o pulso àquela em que vivemos. Sem vacilar.