“Para além de um planeamento cuidadoso, confiarmos uns nos outros, seja em que circunstância for, é talvez a única forma de enfrentar as incertezas do futuro”
Giancarlo Giovanninni, Giovanninni Enterprises, Volterra, Itália
Como a falta de confiança destrói valor: um caso real (nomes fictícios)
A Textêis do Vouga, uma empresa industrial fundada em 1908 e altamente respeitada no setor, enfrenta o seu maior desafio de sempre – com origem não no mercado mas na sala do Conselho. O negócio é gerido por dois primos da quarta geração, António (responsável de operações) e Conceição (diretora de marketing e vendas), que dividem a propriedade 50/50.
Uma crescente hostilidade entre os dois resultou numa total perda de confiança com raiz em desacordos mal resolvidos e diferenças profundas no estilo de gestão de cada um, paralisando a empresa. Como se chegou aqui?
António era um tradicionalista que achava que a prima Conceição era demasiado agressiva na gestão de contratos e achava errado não o envolver em reuniões com clientes chave. Conceição, uma mulher ambiciosa focada em crescer, achava que António estava a desviar em segredo fundos para modernizar as suas linhas de produção preferidas. Na prática, cada um dos primos achava que o outro agia nos seus interesses pessoais à custa da empresa.
A perda de confiança entre acionistas tem um efeito que pode ser mortal no desempenho de uma empresa familiar. Uma forte relação de confiança entre acionistas que partilham um legado e uma visão de futuro é essencial em Famílias Empresariais. Sem essa confiança, a energia que devia ser a fonte de desenvolvimento da empresa é consumida em conflitos internos. E a confiança não é um bem fácil de criar e sustentar, exige uma atenção permanente aos fatores que podem emergir para a erodir …
- A falta de transparência, normalmente de quem detém o poder e sonega informação ao foro acionista
- Temas mal resolvidos, muitas vezes pessoais, que ficam na memória e são obstáculos à criação de confiança
- Desalinhamento entre palavras e ações: o que é dito não é afinal aquilo que de facto é feito
- Falta de equidade na gestão de membros ou de ramos da família, criando sensações de injustiça que vão erodir a confiança
Construir confiança exige tempo, consistência e intenção – mas na prática que fatores mais pesam?
- Garantir que a confiança faz parte dos valores e da cultura da empresa. Definir valores, atuar segundo eles e responsabilizar quem não o faz
- Assegurar um espírito de transparência transversal a todas as relações: ter orientações claras sobre que informação é partilhada com quem e que essas orientações são justas, bem definidas e consensualizadas à partida.
- Clareza de papéis e responsabilidades: definir responsabilidades através de KPIs para os acionistas executivos fortalece a confiança pela transparência gerada
- Criar linhas abertas de comunicação e feedback : a comunicação aberta na tomada de decisões, no governance ou nos resultados de reuniões fortalece a criação de confiança interna
- Assegurar um Protocolo de Família completo, preparado com assessoria especializada, com a participação e anuência de todos os membros da Família – e que inclua todo o tipo de regras e modelos de preservação da confiança e de resolução de conflitos
E quando a confiança se perdeu, como a recuperar?
- Um processo consistente, lento e sensível. o esforço é grande, que não se espere que uma reunião bem-sucedida elimine anos de desconfiança emocional.
- Endereçar as raízes da perda de confiança. A coragem para confrontar os esqueletos no armário é absolutamente crítica num processo de reconstrução da confiança. Zangas não resolvidas e sentimentos escondidos pesam muito na relação no seio da família e endereçar estes temas exige sensibilidade e coragem.
- Responsabilidade reconstruir a confiança requer que todas as partes envolvidas na reconciliação assumam maturidade e responsabilidade que garantas que todos se mantenham alinhados com o comportamento e os acordos feitos.
- Técnicas para explorar as raízes da desconfiança e acordos para reconstruir relação, muitas vezes integradas num bom Protocolo de Família. Obter a colaboração de um assessor especializado pode ser uma solução de mediação importante para reconstruir a confiança.
Têxteis do Vouga: a reconciliação de António e Conceição
Com a gradual degradação da empresa, foi preciso perder o maior cliente para que os primos acordassem – “já não os vemos como um parceiro fiável, cada um diz uma coisa diferente e já não confiamos em vocês”. Contrataram um assessor que os ajudou a colocar na mesa a origem das suas desavenças. Através de um processo de reconciliação e acordos firmes que se comprometeram em respeitar e iniciaram a longa jornada de restauração da confiança e de uma gestão saudável da empresa. Hoje, a empresa ainda não recuperou, mas os primos recuperaram a confiança e acreditam que vão conseguir.