O chanceler alemão Friedrich Merz foi o primeiro líder europeu a visitar o presidente Donald Trump em Washington depois do início dos ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irão – e desde a primeira hora que se colocou do lado da dupla ocidental, mas, decorridas duas semanas, parece estar a começar a ter dúvidas. Esta segunda-feira, voltando ao tema, Merz disse que a guerra de Israel e Estados Unidos contra o Irão “não tem nada a ver com a NATO”. As declarações do chanceler surgem depois de o presidente norte-americano ter exigido ajuda dos aliados para desbloquear o estreito de Ormuz, e dias após ter levantado dúvidas sobre a estratégia que está por trás da guerra. De facto, Merz afirmou que não há um plano para conduzir a guerra e principalmente que não há um plano para acabar com ela – o que, do seu ponto de vista, é contrário aos interesses da coligação e dos países que são seus aliados.
Mais ainda, Merz criticou duramente o governo norte-americano por ter suspendido temporariamente as sanções ao petróleo russo, considerando que foi “um erro” desnecessário. Durante uma visita à Noruega, Friedrich Merz criticou a decisão anunciada pelos Estados Unidos, considerando o alívio das sanções “um erro, seja qual for o motivo”. “Queremos garantir que a Rússia não explora a guerra no Irão para enfraquecer a Ucrânia”, disse. “Infelizmente, a Rússia continua a não demonstrar qualquer vontade de negociar. Portanto, iremos, e devemos, aumentar ainda mais a pressão sobre Moscovo”, acrescentou. “Não permitiremos que a guerra com o Irão nos desvie ou nos distraia disso”, garantiu.
Esta segunda-feira, a chancelaria disse que a NATO é uma “aliança para a defesa do território” dos seus membros e “falta o mandato que permitiria a intervenção” da Aliança Atlântica fora das fronteiras da organização. “Esta guerra não tem nada a ver com a NATO. Não é a guerra da NATO”, insistiu o porta-voz do chanceler Friedrich Merz.
Recorde-se que, no domingo, Donald Trump pressionou a China e vários outros países, da NATO e não só, que ajudem a desbloquear o Estreito de Ormuz, mas não conseguiu nada senão uma recusa seca (da China), ou evasivas do género ‘vamos pensar no assunto, que vieram do Japão, Coria do Sul e Reino Unido, entre outros. Até Portugal, um membro ‘bem comportado’ da NATO – que consegue ter uma visão muito próxima de Washington em quase todas as matérias, a prisão de Nicolás Maduro incluída – rejeitou estar diretamente presente no conflito. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, disse esta segunda-feira que considera que “tudo aquilo que se possa fazer para desobstruir” o estreito de Ormuz e permitir a liberdade de navegação é “positivo”, mas afastou a possibilidade de deslocar meios militares de Portugal para a região.
A Alemanha é outro dos países que deixou claro que não participará diretamente no conflito: não oferecerá “qualquer participação militar”, mas está pronta “a garantir, pela via diplomática, a segurança da passagem no Estreito de Ormuz”, declarou o ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius, esta segunda-feira. “Estamos perante uma situação que não provocámos. […] Esta guerra começou sem qualquer consulta prévia”, acrescentou, sublinhando que a prioridade militar de Berlim é a sua “responsabilidade muito importante” face à ameaça russa no “flanco leste” da NATO e no “Grande Norte”.
“Não enviaremos nenhum navio para o Estreito de Ormuz. Sabemos o quanto isso é extremamente importante, mas não é algo que nos tenha sido pedido nem para o qual estejamos a contribuir”, declarou, do seu lado, a ministra dos Transportes australiana, Catherine King, em declarações à emissora nacional ABC.
Também o Japão indicou esta segunda-feira que “não prevê” uma operação de segurança marítima no Estreito de Ormuz, depois de, num primeiro momento, ter sido dos países que afirmou que iria pensar no assunto. “Na situação atual no Irão, não tencionamos ordenar uma operação de segurança marítima”, declarou perante o Parlamento o ministro da Defesa nipónico, Shinjiro Koizumi.
Questionada sobre as declarações do presidente dos Estados Unidos, Kaja Kallas, alta responsável da diplomacia da União Europeia, respondeu que “é do nosso interesse manter o estreito de Ormuz aberto”. “Por isso é que também estamos a ver o que é que podemos fazer do lado europeu. Temos estado em contacto com os nossos colegas norte-americanos a vários níveis”, referiu. Kallas observou, contudo, que o estreito de Ormuz “está fora da área” da Aliança e “não há países da NATO no Estreito de Ormuz”, salientando que é por isso que a missão Aspides, ou outra missão voluntária que seja criada por Estados-membros da UE para o Estreito de Ormuz, é importante.
Novas ameaças de Trump
Depois de ter solicitado sem êxito a ajuda para manter o estreito navegável, Trump endureceu as suas declarações e advertiu, também esta segunda-feira, que a NATO enfrenta “um futuro muito mau” se os países aliados não ajudarem a restaurar a passagem de navios pelo estreito.
“É apropriado que aqueles que beneficiam do estreito ajudem a garantir que nada de mal acontece ali”, disse Donald Trump numa entrevista ao “Financial Times”, referindo que a Europa e a China dependem do petróleo do Golfo. “Se não houver resposta, ou se a resposta for negativa, penso que será muito mau para o futuro da NATO”, acrescentou.
“Espero que a China, a França, o Japão, a Coreia do Sul, o Reino Unido e outros afetados por esta restrição artificial enviem navios para a região, para que o Estreito de Ormuz deixe de ser uma ameaça de uma nação completamente sem liderança”, escreveu Trump nas redes sociais antes de optar por convocar a NATO.
“Não precisávamos de os ajudar com a Ucrânia. A Ucrânia está a milhares de quilómetros de distância de nós… Mas ajudámo-los”, recordou Trump. “Agora veremos se nos ajudam. Porque já disse há muito tempo que estaríamos lá por eles, mas eles não estariam lá por nós. E não tenho a certeza se estarão”, afirmou na entrevista.
Entretanto, o governo israelita afirmou que a guerra vá durar pelo menos mais um mês. Os israelitas pretendem realizar “ações surpreendentes” no Irão com o objetivo de derrubar o regime. Surpresa não é por certo o facto de Israel estar a ponderar uma invasão terrestre do Líbano: milhares de militares já começaram as operações em terra no sul do país, com o objetivo de criar uma faixa de segurança a cerca de cinco quilómetros para lá da fronteira comum e ocupar esse ‘tampão de segurança’ até conseguir um acordo com o governo libanês para desarmar o Hezbollah.